O empresário e presidente do UFC, Dana White, foi alvo de críticas após declarar que o caos vivido durante um ataque a tiros em Washington, D.C., no fim de semana foi “incrivelmente bom” e “uma experiência única”. O episódio ocorreu durante o jantar da imprensa na Casa Branca, quando um homem invadiu a área de segurança e abriu fogo antes de ser contido por agentes do Serviço Secreto e por policiais locais.
De acordo com as informações divulgadas sobre o caso, a confusão se espalhou no evento, com o presidente Donald Trump, a primeira-dama Melania Trump e outros integrantes do gabinete sendo levados para um local seguro. No salão, convidados entraram em pânico e tentaram se esconder sob mesas, diante do risco imediato. Ao final, um policial foi atingido e sobreviveu graças ao uso de colete à prova de balas. O suposto autor do ataque, identificado como Cole Allen, de 31 anos, foi preso e depois ficou sob acusações relacionadas a uma tentativa de assassinato contra Trump.
Após o ocorrido, White concedeu entrevista e afirmou que não se abaixou para se proteger quando a situação começou. Ele também descreveu o momento como algo “f*cking awesome”, dizendo que “captou cada minuto” do que estava acontecendo, chamando a situação de “bem maluca” e “diferente de tudo”.
Reação de Matt Brown
O ex-lutador do UFC na categoria dos meio-médios Matt Brown, aposentado das competições, reagiu com forte discordância sobre a escolha das palavras. Brown disse que ficou “chocado” ao ouvir o trecho curto de White descrevendo o ataque como algo legal, especialmente por ter vivido uma tragédia semelhante que, segundo ele, em hipótese nenhuma pode ser considerada “boa” ou “legal”.
Em entrevista no programa “The Fighter vs. The Writer”, Brown afirmou que já esteve em meio a um tiroteio real e que a experiência não tem nada de “incrível”. Para ele, o mais chocante é ver alguém dizer que um ataque desse tipo foi “espetacular”, já que pessoas podem estar em risco e alguém pode acabar baleado. Brown também ressaltou o caráter traumático do evento, mesmo no cenário em que o agressor não resulte em morte, e argumentou que não existe nada “legal” em alguém ser atingido.
O norte-americano ainda declarou que não entende por que alguém deveria achar o episódio “incrível”, chamando a fala de White de algo “estranho” e “fora do comum”.
O que Matt Brown viveu em 2004
Brown relembrou que, em 2004, esteve em um show em Columbus, Ohio, com a banda Damageplan encabeçando a programação. Na ocasião, um homem identificado como Nathan Gale invadiu o palco e matou o guitarrista “Dimebag” Darrell Abbott. Gale acabou sendo responsável por quatro mortes, incluindo Abbott, feriu mais três pessoas e ainda fez uma pessoa como refém antes de um policial de Columbus chegar ao local e acabar atirando no agressor, que morreu.
Segundo Brown, ele estava próximo do palco durante o início do ataque e viu toda a sequência se desenrolar, incluindo o momento em que Gale foi alvejado e morto por um policial. Ele citou que observou o agressor ser atingido de forma fatal por um tiro disparado pelo agente James Niggemeyer, ressaltando que o policial precisou tomar uma decisão em poucos segundos porque havia um refém na situação.
Brown afirmou que o policial não estava em serviço no momento, mas que, ao ver o chamado, entrou em ação e teve a vida completamente transformada a partir daquele instante. Para o ex-atleta, o ponto principal é que aquilo foi traumático para muitas pessoas: não apenas para quem presenciou os tiros ou para quem teve que atirar, mas também para aqueles que sequer conseguiram entender o que estava acontecendo naquele momento.
Ele disse ainda que não costuma comentar esse tipo de lembrança com frequência, mas que não se sente envergonhado ou constrangido por ter passado por aquilo. Brown completou que não consegue entender como alguém poderia dizer que aquilo foi “bom” ou “incrível”.
O lutador também mencionou que viu pessoas sendo atingidas e mortas e que a cena não sai da mente. Em seu relato, Brown contou que, enquanto tentava se afastar com a confusão, chegou a pensar em não ser atingido pelas costas, virou o corpo e, imediatamente após isso, alguém foi baleado bem ao lado dele.
“O intento de matar estava ali”
Mesmo afirmando que não carrega traumas duradouros do episódio de 2004, Brown disse reconhecer que muitas pessoas foram profundamente impactadas naquela noite. No caso do jantar na Casa Branca, ele entende que a intenção de matar estava presente, já que o agressor teria começado a disparar assim que conseguiu passar pelo ponto de segurança.
Por isso, Brown considerou impossível compreender a forma como Dana White descreveu o que aconteceu no sábado. Ele disse que não é do tipo que costuma criticar o que outras pessoas falam o tempo todo, reconhecendo que White costuma provocar reações e gerar conversas. Brown ainda comparou a postura do empresário com o clima de promoção de lutas, dizendo que, ao promover eventos e a ideia de duas pessoas entrarem no octógono para se enfrentarem, era de se esperar algum tipo de linguagem mais provocativa.
Entretanto, Brown afirmou que, para ele, há um limite quando o assunto envolve um ataque a tiros. O ex-lutador argumentou que não dá para chamar aquilo de “legal”, chamando a fala de White de “sem noção” e dizendo que existem muitas alternativas simples de palavras, mas que aquela escolha específica não deveria ter sido feita.

