Dana White e Hunter Campbell explicam por que Rousey x Carano não rolou no UFC

Dana White e Hunter Campbell tiveram uma boa intuição ao prever que Ronda Rousey encerraria Gina Carano rapidamente — e essa avaliação acabou pesando na decisão de não colocar o confronto no calendário do UFC. Com isso, a luta ganhou outro destino e acabou promovida pela Most Valuable Promotions, do Jake Paul, com o evento exibido ao vivo pela Netflix na noite deste sábado.

Rousey dominou e finalizou em 17 segundos

No retorno aos ringues após uma década, Rousey conseguiu uma queda logo no início e encaixou sua finalização clássica: a chave de braço em estilo armbar. A luta terminou em apenas 17 segundos, com Carano sendo derrotada de forma imediata, reforçando o favoritismo absoluto que a lutadora carregava para o duelo.

O resultado não surpreendeu tanto por um motivo claro: Rousey vinha em uma trajetória de grande destaque no MMA, especialmente após chegar ao UFC e passar a desmontar adversárias em um padrão semelhante. Além disso, a atleta é medalhista olímpica no judô, o que contribui para a eficiência nas transições que levam ao controle e, em seguida, à finalização.

O que motivou a desistência do UFC

  • White e Hunter Campbell previram que o combate contra Carano terminaria muito rápido.
  • Mark Shapiro afirmou que, na visão do TKO Group Holdings, a luta não seria um bom produto para o UFC.
  • Shapiro apontou que o desfecho curto não ajudaria a construir algo maior para o público.
  • Rousey declarou que voltaria apenas para enfrentar Carano e depois se aposentaria novamente.
  • Houve a percepção de que o evento seria mais “truque” do que uma apresentação relevante do MMA.

Nos bastidores do evento, Rousey adotou uma postura de confronto constante. Antes da noite de lutas, ela atacou Hunter Campbell — que ocupa o cargo de executivo-chefe de negócios da organização — repetidas vezes. O motivo, segundo a avaliação mais recente, pode ter relação direta com a opinião de Campbell sobre o confronto com Carano.

Em entrevista durante a conferência JP Morgan Global Technology, Media and Communications, realizada na segunda-feira, Mark Shapiro, presidente e diretor operacional do TKO Group Holdings, explicou como o contexto do matchup foi percebido internamente. Para ele, há uma “arte” e uma “habilidade” específicas no processo de encaixar lutas.

Shapiro afirmou que, quando a empresa avaliou a possibilidade do duelo e perguntou a Hunter Campbell e a Dana White o que esperavam do combate antes que ele acontecesse, as respostas indicaram um término em cerca de 20 segundos. Ainda assim, o executivo ressaltou que o tempo real acabou fugindo um pouco dessa estimativa.

Argumento sobre “mismatch” e impacto no MMA

O dirigente também defendeu que esse tipo de descompasso — e principalmente uma finalização muito rápida — não seria um bom cenário para o UFC. Ele citou ainda que, mesmo com o alcance global da Netflix, o produto poderia acabar transmitindo uma ideia equivocada do MMA para quem consumisse a transmissão pela primeira vez.

Shapiro destacou o peso do público que a plataforma reúne e a chance de a audiência “experimentar” o esporte a partir do que estiver em destaque na página inicial. Para ele, se esse primeiro contato for com um combate que se encerra cedo demais, a impressão sobre como o MMA funciona no longo prazo pode não ser positiva para a modalidade.

Mesmo assim, ele reforçou que a decisão tomada foi no sentido de “passar” pelo confronto. Na visão do TKO Group Holdings, a luta não se conectava a um plano maior dentro do ecossistema do UFC, especialmente porque Rousey deixou claro que estava retornando apenas para encarar Carano e, depois disso, voltar a se aposentar.

Apesar de Rousey ter mantido o discurso de que jamais falaria mal de White ou dos ex-proprietários do UFC, Lorenzo e Frank Fertitta, a preparação para o evento foi marcada por entrevistas e falas em que ela criticou o TKO Group Holdings e a forma como a organização vem conduzindo o UFC atualmente.

Shapiro deixou claro que a empresa mantém o maior respeito por Rousey e por sua lista extensa de conquistas. Ainda assim, segundo ele, não houve interesse em promover a luta contra Carano.

O executivo disse que não diminui em nada o valor do que Rousey conquistou e que era esperado um volume alto de audiência para o que a Netflix certamente reportaria em seguida. Porém, para o TKO Group Holdings, a avaliação foi que o duelo se tratava mais de um “truque” do que de um evento que representasse adequadamente um momento significativo do MMA.

Por que a Netflix se interessou

Shapiro também explicou por que o evento fez sentido para a Netflix. Ele lembrou que os executivos da maior plataforma de streaming do mundo já indicaram repetidamente que pretendem investir em grandes eventos de destaque quando se trata de programação esportiva.

O co-CEO Ted Sarandos já havia afirmado que a empresa não quer investir em pacotes completos de temporada para esportes profissionais. Em contrapartida, eventos especiais — como o acordo para exibir jogos da NFL no Natal — se encaixam perfeitamente no modelo que a Netflix busca.

Por isso, a Netflix já havia tentado parte dos direitos de transmissão do UFC antes. Só que, segundo Shapiro, o interesse da rede foi voltado apenas para os eventos numerados (pay-per-view), e não para a quantidade de Fight Nights que movimenta o calendário ao longo do ano.

“Foi proposto para nós antes e a gente recusou”, afirmou Shapiro sobre Rousey contra Carano. Ele ressaltou que isso não diminui a Netflix, que é tratada como uma parceira forte e que domina o que faz em todos os segmentos do entretenimento.

Shapiro também mencionou que a plataforma não chega a números na casa de 300 milhões ou 350 milhões de assinantes “por acaso”. Na leitura do dirigente, o catálogo da empresa é diferente, bem caracterizado e feito para atender públicos variados.

Ao concluir, ele reforçou que a Netflix opera como negócio de grandes eventos. O executivo disse que a empresa não procura “comprar ligas” e citou exemplos: a abertura do beisebol na programação, a realização do Home Run Derby e a contratação de um pacote de cinco partidas da NFL. Para Shapiro, a Netflix enxerga esse tipo de acontecimento como “espetáculo” — e considerou o duelo de Rousey contra Carano exatamente nesse formato.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.