O UFC Fight Night 275, que acontece na Austrália Ocidental, coloca frente a frente dois lutadores com perfis que lembram, em termos de dinâmica de trocação, uma das rivalidades mais icônicas do boxe: Jack Della Maddalena contra Carlos Prates. A comparação ganha força pelo contraste entre estilos, pela forma como cada atleta encontra ângulos e pelo potencial de “decidir” a luta quando a distância fica favorável.
- Evento: UFC Fight Night 275
- Luta principal: Jack Della Maddalena vs. Carlos Prates
- Estilo em paralelo: comparação com Marvin Hagler vs. Thomas Hearns
- Enquadramento de horário: caminhadas para o octógono previstas para cerca de 9:35 a.m. ET
- Onde assistir: transmissão no Paramount+
O “Hagler x Hearns” do MMA: por que a luta entre Della Maddalena e Prates chama atenção
Marvin Hagler, um dos nomes mais admirados do pugilismo, era um canhoto que alternava posturas e conseguia ser tão criativo quanto eficiente dentro do ringue. Em abril de 1985, ele foi desafiado pelo então campeão peso super-médio Thomas Hearns, um pugilista longo, de envergadura e com potência capaz de encurtar qualquer conversa. No MMA, a leitura é parecida: Della Maddalena entra como a figura que lembra Hagler, com todo o respeito devido ao que Dustin Poirier representa no legado do esporte.
Jack Della Maddalena: switch de postura, poder e defesa acima do esperado
Com capacidade de atuar como “switch-hitter” e com força de finalização nas duas mãos, Della Maddalena tende a ser um adversário complicado no mano a mano. Ele não depende apenas de atacar: também consegue se defender melhor do que a simples aparência do rosto sugeriria, especialmente quando as trocas se tornam frequentes.
Nas disputas de curta e média distância, Della Maddalena mostra bons instintos para ler o timing do oponente. Em vez de apenas “tomar” e recuar, ele costuma ajustar o corpo, absorver impactos com relativa eficiência e, ao enxergar brechas, tenta responder com força e intenção. Quando o ritmo encaixa, o australiano não economiza combinações, mirando tanto a região da cabeça quanto o corpo com mãos pesadas que chegam em sequência.
Além da parte de boxe e do impacto, há também chutes e joelhadas com valor prático — principalmente saindo do lado canhoto. Esse tipo de ameaça ficou evidenciado na campanha que levou ao título contra Belal Muhammad. Ainda assim, o ponto de teste aqui é claro: confirmar se ele consegue lidar com o mesmo nível de perigos quando a pressão vem de volta, em um duelo onde o oponente também tem repertório para castigar em múltiplos planos.
Em uma luta com tantas variáveis, Della Maddalena precisa transformar a sua fluidez em vantagem real, porque Carlos Prates não chega apenas para trocar. O brasileiro tem “poder de destruição” suficiente para mudar o destino de uma luta a qualquer momento.
Carlos Prates: canhoto experiente, presença e ameaça em vários níveis
Apesar de atuar em postura oposta à de Hearns na analogia, Prates carrega um tipo de força que pode ser decisiva contra praticamente qualquer guarda. Ele é um canhoto experiente, que passou alguns anos competindo na Tailândia, e isso aparece no jeito confiante de impor presença no combate.
Defensivamente, Prates sabe usar uma guarda alta quando julga necessário. Ao mesmo tempo, ele não depende apenas de bloquear: costuma colocar em prática ajustes como rotações defensivas (pivôs), ombro-rolagem e movimentação de cabeça. Embora exista a sensação de que ele poderia ser ainda mais agressivo com o jab para abrir espaço ofensivo, ele mantém o ritmo da luta com prods e aproximações de mão à frente, além de encaixar variações de contra-ataque com gancho quando a oportunidade surge.
Quando Prates encontra a distância, a ameaça dele se torna ainda mais completa. A combinação de chutes com potência e cruzados coloca o adversário em situação desconfortável, criando um cenário de “ataque duplo” pelo lado canhoto: você não sabe se vai levar primeiro o impacto de perna ou se a mão vai vir logo em seguida, e o conjunto tende a funcionar como uma engrenagem.
Aos 32 anos, Prates também pode atuar como “executor” quando escolhe o momento de avançar, usando múltiplas ferramentas. Ele ainda tem um estilo de chutar pernas que não escolhe alvo: em situações de espaço aberto, não hesita em mirar o membro de trás, em uma linha parecida com a abordagem vista em Sittichai Sitsongpeenong.
Clinch e combate em curta distância: onde a luta pode “ganhar corpo”
Mesmo que o público não espere muito grappling como roteiro principal do main event, a verdade é que ambos possuem recursos subestimados quando o combate entra em áreas de clinch. É nesse território que as habilidades fechadas costumam aparecer, com joelhadas, cotoveladas, controle de posição e disputa por espaço.
Prates, por exemplo, consegue trabalhar com pegadas de colar que combinam com o perfil de um lutador que vem do striking. Na defesa de quedas, ele também mostra uma base sólida: quando precisa evitar o “plano do adversário”, seus fundamentos aparecem de maneira prática.
Seja ao levantar braços do oponente com whizzers bem presos na área do quadril, ou ao usar quadros com antebraços para atrapalhar a progressão, Prates demonstra boa inteligência de luta na cerca. Já no espaço aberto, ele parece ter quadris fortes de forma “discreta”, o que ajuda na reação rápida para interromper tentativas que miram as pernas.
Quando o combate vai para baixo, Prates tende a manter a calma e buscar soluções que favorecem voltar em pé ou buscar varreduras em vez de se prender a finalizações. Um exemplo desse raciocínio aparece com um movimento específico: uma butterfly sweep que ele aplicou diante de Charles Radtke. Em uma luta com Della Maddalena, esse tipo de ferramenta pode ser especialmente relevante contra um adversário que também busca se reorganizar rapidamente.
Della Maddalena no clinch, no scramble e na transição para o chão
Do lado de Della Maddalena, a vantagem costuma estar na flexibilidade e no controle de fases. Ele gosta de encontrar joelhadas e cotoveladas quando a luta encurta, mas também recorre a varreduras de estilo judô e a interrupções para criar separação — sempre que não consegue prender o oponente com firmeza.
Se for derrubado, Della Maddalena geralmente demonstra rapidez no scramble. A ideia costuma ser recuperar o próprio equilíbrio e jogar o jogo de guarda/turtle, tentando transformar a desvantagem em uma nova oportunidade. A guarda dele também tem um componente que costuma passar despercebido: ele sabe manter o caos controlado por cima das trocas de posições para tentar abrir chances de reversão.
Ao mesmo tempo, existe um alerta importante: quando o lutador vai para turtle, ele pode abrir espaço para situações de headlock tanto pela frente quanto pelas costas, então a leitura de perigo precisa ser precisa. Contra um adversário como Prates, que tem recursos em curta distância e capacidade de ajuste, qualquer brecha na transição pode custar caro.
Mercado de apostas: Prates levemente favorito em linha de “quase empatado”
Mesmo com os bookies iniciais colocando o brasileiro como favorito, o mercado público aproximou o confronto de um cenário de “equilíbrio”, com odds próximas de uma disputa casa a casa. Em uma precificação citada no mercado, Prates aparecia com -122 e Della Maddalena com -104 no FanDuel, reforçando que a percepção é de uma luta muito aberta.
O raciocínio de “quase empate” faz sentido dentro da narrativa do que cada um representa: Della Maddalena tem capacidade de competir e responder fora de distância, como Hagler conseguia fazer quando precisava; porém, a expectativa é que Prates possa se beneficiar ao pressionar e transformar o jogo em uma arena onde o poder de chutes e mãos pesa mais.
O confronto de pressão: como Prates pode barrar o plano de Della Maddalena
A analogia com Hagler x Hearns volta a aparecer no ponto mais delicado. No boxe, Hagler era um homem mais baixo e, quando não conseguia vencer no alcance com armas tradicionais como o jab, migrou para um estilo com troca de postura e entradas pensadas em sequência. No MMA, Della Maddalena tem a capacidade de competir e contra-atacar fora, mas a leitura é que Prates, por ter um pacote mais completo com chutes, joelhadas e cotoveladas, tem recursos para dificultar o avanço.
Além do repertório ofensivo, Prates também se protege com uma variação de ombro-rolagem em formato de “casca”, o que pode ser um trunfo. A ideia é que esse tipo de defesa pode lembrar soluções que já deram certo contra Della Maddalena no passado, especialmente quando o oponente consegue manter ângulos e minimizar o impacto das entradas.
Para Della Maddalena, posicionamento no octógono e controle da direção do combate são peças-chave. Para Prates, pivôs defensivos e golpes posicionais têm espaço para crescer no grande formato do ringue. Mesmo que Prates tenha sido “lido” e enfrentado com eficiência por parte de Ian Garry em rodadas importantes — um atirador posicional de canhoto com muita capacidade —, Della Maddalena não costuma oferecer o mesmo tipo de disciplina de pontuação que Garry traz para a mesa.
Chutes nas pernas, cruzados e o impacto do jogo de canhotos
Outro ponto sensível é que, contra canhotos de nível UFC, Della Maddalena mostrou tendência a acertar em cenários onde a postura cria correspondência. Isso pode virar uma dor de cabeça frente a um lutador como Prates, que busca justamente controlar o ritmo do corpo e do alcance com ameaças em múltiplos níveis.
Na última aparição de Della Maddalena contra Islam Makhachev, ficou visível que seu estilo mais centrado no boxe pode encontrar alvos quando o adversário não é apenas “bom” em chutes, mas permite janelas para impacto. Só que Prates é outro tipo de ameaça: além de atacar pernas como parte do jogo, o brasileiro costuma crescer quando enfrenta canhotos com repertório de luta em pé.
Mesmo com Della Maddalena sendo admirado por seu impacto no corpo, a projeção aqui é de que Prates seja o primeiro nome com potencial para devolver ao australiano uma amostra do próprio remédio naquela mesma esfera. Ainda que o plano de sucesso precise, em essência, seguir um roteiro parecido com o que funcionou para Hagler — ou seja, encontrar o momento certo para transformar pressão em dano —, a quantidade de caminhos possíveis torna difícil cravar um cenário único.
Palpite: finalização ainda no terceiro round
Mesmo com a comparação com Hagler x Hearns sugerindo um roteiro de “pressão + adaptação”, a conclusão é objetiva quando chega a hora de apontar um vencedor. Se for para escolher, a aposta recai no lado de “The Hitman” para vencer a versão do confronto no MMA.
A previsão oficial apresentada é que Prates consiga abrir o caminho para uma parada após um golpe no corpo, culminando em interrupção via strikes ainda no terceiro round.
Prediction: Prates inside the distance
Como luta principal, Della Maddalena e Prates devem entrar no octógono por volta de 9:35 a.m. ET. O duelo terá transmissão no Paramount+.
