Durante grande parte da preparação para o duelo do UFC 328, T.J. Dillashaw acompanhou de perto o campo de treinamento de Khamzat Chimaev — e, justamente por isso, o ex-campeão ficou surpreso com a dificuldade do sueco/checheno no cage, especialmente no corte de peso. No evento, Chimaev encarou Sean Strickland, mas acabou sendo derrotado em decisão dividida, com o norte-americano recuperando o cinturão dos médios.
O resultado recolocou Strickland no topo da divisão dos 185 libras, porém a narrativa das 24 horas finais antes do combate girou em torno do que Chimaev apresentou na balança oficial. Para quem entende de corte, o peso foi o primeiro alerta de que algo poderia dar errado no desempenho durante a luta.
Dillashaw explica por que suspeitou do corte
- Dillashaw afirmou que Chimaev “parecia um animal” no camp, como se fosse imbatível.
- O ex-campeão disse que a forma como o atleta foi orientado a cortar peso foi “horrível”.
- Ele citou que, no passado, apresentou Chimaev aos especialistas da Wild Society Nutrition, com destaque para Sam Calavitta.
- Dillashaw defendeu que Calavitta trabalha com ciência de recuperação, suplementos e monitoramento por exames, para buscar o pico de performance.
- O brasileiro/norte-americano da história apontou que, no fim da preparação, o atleta teria confiado a parte da nutrição e do corte a outras pessoas, o que teria comprometido tudo.
Em entrevista, Dillashaw reforçou que o acompanhamento vai além de “bater peso” e envolve recuperação, suplementos e até correções ligadas a minerais que podem estar faltando no corpo. Ele também mencionou checagens como níveis hormonais e amostras relacionadas a indicadores de saúde, defendendo que o objetivo é chegar ao ponto máximo no momento do combate.
Segundo Dillashaw, quando a estrutura muda nas etapas finais, o risco aumenta. Ele relatou que a confiança em outro responsável pela nutrição e pelo corte teria “estragado” o planejamento que vinha funcionando no camp.
Strickland e a suspeita de que Chimaev não fez o peso
Após a pesagem oficial — e mesmo depois da vitória — Strickland seguiu convencido de que Chimaev não teria, de fato, atingido o peso corretamente. O lutador ainda teria ligado a situação a um “favor” feito pela autoridade do estado de Nova Jersey durante o evento.
Vale destacar que nenhuma dessas acusações foi confirmada ou comprovada.
O ponto central: água, hidratação e colapso do corpo
Questionado sobre o principal motivo para o sofrimento de Chimaev, Dillashaw foi direto ao que considera o fator decisivo: a água. Para ele, o corpo pode entrar em colapso quando a perda de peso acontece rápido demais e sem hidratação suficiente, afetando inclusive sinais que o organismo envia ao cérebro.
Dillashaw descreveu que, se a pessoa corta água de maneira agressiva, o corpo pode parar de suar e o esforço do restante da redução se torna mais perigoso. Mesmo quando faltam poucos quilos para fechar, ele argumentou que o processo pode tomar horas, com o atleta “se destruindo” durante o caminho.
O ex-campeão disse que acompanha diariamente, em detalhes, quanto ingere de água durante a semana de luta e também quando pretende dormir. Ele afirmou que Calavitta saberia até em que horário o atleta acordaria e como seria a “flutuação” durante a noite — e que, na visão de Dillashaw, esse tipo de controle não teria sido feito.
De acordo com Dillashaw, Chimaev teria ingerido apenas uma fração do volume de água necessário e, em um único período, teria perdido quatro vezes mais do que deveria. O resultado teria sido a queda do rendimento: o corpo teria “dado out” e, além disso, Chimaev teria não tido intenção de fazer o peso, apenas tentado chegar à luta mesmo com risco elevado.
Ele também mencionou que o atleta teria condições médicas que afetam o metabolismo, dizendo que Chimaev teria “metade” da função de tireoide de uma pessoa comum. Na leitura de Dillashaw, sem o tratamento adequado, esse tipo de situação pode se tornar perigosa — e ele chegou a afirmar que acredita que Chimaev esteve perto da morte durante o corte.
Clima pesado, segurança extra e reconciliação após o combate
O duelo teve bastante tensão e animosidade pessoal antes de começar. Por isso, o UFC teria providenciado reforço extra de segurança para os headliners e suas equipes, caso eles se cruzassem fora do cronograma oficial.
Apesar do clima ruim, os dois lutadores tocaram as luvas antes do combate e encerraram a rivalidade assim que a luta terminou.
Decisão apertada e o que Dillashaw pensa sobre o placar
Dentro do octógono, Strickland venceu dois dos três cartões e se tornou campeão dos médios pela segunda vez, garantindo o cinturão na decisão dividida. Dillashaw, no entanto, disse concordar com a maioria de que não foi um roubo — mas sustentou que Chimaev teria feito o suficiente para vencer.
Na visão dele, o problema não está apenas na contabilidade de vitórias e derrotas: Chimaev teria entrado no confronto em um estado comprometido. Dillashaw afirmou que ficou especialmente surpreendido por o atleta ainda ter conseguido se manter competitivo apesar do que ele considera ter sido um cenário assustador na semana do combate.
Ele declarou que enxergou pelo menos três rounds para Chimaev, com o quarto muito perto, e reforçou que não chama o resultado de roubo. Para Dillashaw, a diferença teria vindo de uma “subperformance” enorme do próprio Chimaev, o que teria influenciado a leitura dos juízes.
Dillashaw também relacionou a percepção de Strickland: na interpretação dele, o norte-americano teria sentido que escapou de um desfecho adverso, já que o ritmo do primeiro round poderia ter sido mantido caso Chimaev estivesse inteiro.
O ex-campeão ainda afirmou que conversou recentemente com Calavitta e que, mesmo sem falar diretamente com Sam, ele já desconfiava que Chimaev não estava consumindo os alimentos corretos. Ele citou que eram divulgadas postagens ligadas à nutrição pelo atleta e por seu nutricionista, e declarou que, olhando de fora, “Sam não faria” o atleta comer aquilo.
Na sequência, Dillashaw relatou que viu Chimaev sentado na banheira para reduzir peso e disse que, na lógica dele, Calavitta não deixaria o atleta passar por esse tipo de procedimento. Ele também apontou relatos sobre o que estaria acontecendo de fato, incluindo vômitos de coloração esverdeada, algo que, para Dillashaw, tornaria improvável que o atleta deveria ter chegado ao evento.
Mesmo assim, Dillashaw destacou que Chimaev conseguiu lutar bem em rounds como o quarto e o quinto, preservando melhor o fôlego do que Strickland — algo que, segundo ele, seria ainda mais improvável porque o norte-americano é conhecido por cardio e resistência. Na avaliação do ex-campeão, Chimaev teria avançado e conectado golpes mais pesados, enquanto Strickland teria conseguido vencer seguindo para trás e trabalhando principalmente o jab.
Rematch segue no ar, mas nada oficial
Após o combate, Chimaev passou a pressionar por uma revanche. Entretanto, no pós-luta do UFC 328, o presidente do UFC, Dana White, revelou que “Borz” teria dito a ele que queria subir para a divisão dos meio-pesados.
O que aconteceu depois do evento aponta para uma segunda chance contra Strickland, mas não houve confirmação oficial de um novo encontro ainda.
Dillashaw quer mudar o foco do debate sobre Chimaev
Independentemente do caminho que Chimaev tomar, Dillashaw afirmou que deseja que a história mude: para ele, o que chama atenção é a capacidade do atleta de atravessar um corte extremamente complicado e ainda assim competir no nível que competiu.
Ele reforçou que Chimaev tem um quadro que impacta a tireoide e, por consequência, dificulta a redução de peso. Na opinião de Dillashaw, o atleta precisa apenas fazer isso do jeito certo, recuperando primeiro o cinturão dos 85 libras antes de considerar a subida de categoria, ou mesmo decidir ir aos 205.
Para sustentar seu argumento, Dillashaw comparou a situação com a própria experiência: ele disse que, em semanas de combate, costuma chegar cerca de 15 libras acima no dia de checagem de peso — e que, para ele, isso é administrável quando a hidratação está no controle. Ele explicou que, nesse cenário, o ajuste vira mais uma questão de deslocamento de água, e não uma “corrida” desesperada.
Já Chimaev, segundo Dillashaw, teria chegado à fase de luta apenas 16 libras acima. Ainda assim, o ex-campeão acredita que a falha teria sido justamente o manejo da água e o acompanhamento do processo, o que teria tornado tudo mais perigoso e imprevisível.
Fechando, Dillashaw pediu cautela com atletas no processo de corte, destacando que a modalidade ainda está em uma fase em que existem muitos “charlatães” e orientações ruins. Para ele, é essencial pesquisar e entender como cada equipe conduz o trabalho para que o lutador chegue vivo e pronto ao dia do combate.

