O confronto entre Gina Carano e Ronda Rousey no card do Netflix neste sábado, 16 de maio, carrega um peso diferente para quem acompanha apostas e histórico recente. Apesar do desafio, Carano chega como azarona — com odds na casa de +400 — enquanto Rousey é a favorita, listada em -535. Ainda que os números não cheguem perto das antigas linhas que colocavam Rousey como um fenômeno absoluto (quando ela já apareceu com cotações na faixa de -1000 a -1500 com frequência), eles ainda deixam claro quem, no papel, tende a levar a melhor.
O cenário chama atenção especialmente porque Carano, mesmo voltando ao cenário competitivo, gera curiosidade por causa do que já foi dito por ela em relação ao próprio tipo de impacto suportado em treinos. A leitura geral é que a experiência de Rousey — com base técnica e físico de atleta de alto nível — pesa muito, mas a aposta do “lado Carano” é a evolução recente da lutadora e a preparação que ela vem conduzindo para o retorno.
Treino com Merab Dvalishvili e a confiança no “choque”
Um dos nomes que acompanha mais de perto o momento de Gina Carano é Merab Dvalishvili, companheiro de equipe na Syndicate MMA e parceiro eventual de treinos. Enquanto ele aguarda a chance de recuperar o cinturão peso-galo do UFC que hoje pertence ao momento de Petr Yan, Dvalishvili usou sua experiência no ginásio para explicar o que viu na preparação de Carano.
Em participação no The Ariel Helwani Show, Dvalishvili contou que o treino com a brasileira/americana (dependendo do contexto de carreira) foi um choque positivo. Para ele, o nível demonstrado por Carano nas sessões recentes foi superior ao que ele esperava.
“Foi uma honra treinar com ela. E eu fiquei surpreso com o quanto ela é boa — uma surpresa positiva, mesmo”, afirmou Merab Dvalishvili.
O lutador também destacou a semelhança de base técnica: ambos teriam ligação com o judô, o que, na visão dele, ajuda a explicar por que Carano está conseguindo construir um camp tão consistente.
“A Ronda Rousey tem formação no judô. Eu também tenho judô, e eu fui muito ‘judoca’ no meu tempo. Por isso eu acredito que a Gina vai vencer esta luta. O quanto ela está bem hoje é impressionante”, declarou o georgiano.
Merab ainda relembrou como era a distância entre ele e o trabalho de Carano no passado. Segundo ele, quando Carano competia com força, ele era mais jovem e ainda não estava no MMA, sem acompanhar de perto o que a lutadora já fazia antes. Mas, após treinar ao lado dela, ele passou a revisitar o histórico com atenção.
“Quando ela lutava, eu era bem jovem e nem estava no MMA. Eu não tinha assistido as lutas dela antes. Só que treinando com ela, eu fiquei muito impressionado. Aí eu fui atrás e vi tudo: revisei as lutas, chequei cada uma. Ela é de verdade, e eu penso que ela consegue derrotar a Ronda”, disse Dvalishvili.
Ao projetar o impacto do resultado, Merab foi direto. Ele acredita que a performance de Carano pode causar uma impressão negativa até para atletas do UFC e, ao mesmo tempo, atingir o prestígio do judô como referência de luta.
“Isso vai fazer os lutadores do UFC parecerem mal. E também vai fazer o judô parecer mal”, cravou o lutador.
Na sequência, Merab reforçou o ponto principal para a própria confiança: disciplina e mudança visível no camp. Para ele, Carano não só treinou pesado como também evoluiu em aspectos práticos do corpo e do ritmo de preparação.
“Ela treinou muito forte. Eu fiquei impressionado. Dá para ver a mudança, até no corpo dela: a preparação mudou por completo. E ela está treinando em nível alto. Eu acho que ela vai entregar”, concluiu.
Ronda Rousey: o desafio do nível olímpico e o “combo” que decide
Apesar da confiança de Dvalishvili e da preparação mencionada por ele, o desafio para Carano é gigantesco por causa do histórico de Rousey e da capacidade de finalização que ela carrega desde a era de grande domínio no MMA. Carano foi uma força relevante em 2008, mas o cenário do MMA feminino endureceu bastante desde então, com mais atletas especializadas, mais volume de lutas e uma elevação geral do padrão técnico.
Rousey, por sua vez, entra no confronto como atleta de calibre olímpico, com um repertório que assusta principalmente por como transforma golpes em finalizações rápidas. Um dos pontos que sempre aparecem quando o assunto é a “ameaça imediata” de Rousey é o encaixe do judô, especialmente o caminho que leva do arremesso a um mata-leão de braço (armbar) em poucos segundos — um tipo de finalização que pode mudar totalmente a dinâmica do combate assim que a distância e o timing são quebrados.
Com isso em mente, fica a pergunta inevitável: como lidar com o “combo” de judô que pode encerrar em torno de quatro segundos, além de fatores como idade e possível falta de ritmo competitivo recente? A resposta, no entanto, foi colocada de maneira bem pragmática por Merab, resumindo a ideia de que Carano precisa ser agressiva e colocar Rousey sob pressão desde cedo.
O plano: pressão imediata e “bater para valer”
Na visão apresentada sobre como encarar Rousey, a estratégia passa por tentar interromper o jogo da adversária antes que ela consiga organizar o próprio timing. Em vez de tentar “jogar no mesmo ritmo”, a proposta é ser direta e perigosa o quanto antes.
“Você tem que tentar acertar a Ronda bem na boca, o mais forte que conseguir, o mais rápido que der. E vamos ver o que acontece a partir daí”, afirmou Dvalishvili, sintetizando o caminho que, para ele, faz sentido contra uma lutadora capaz de converter oportunidades em finalização instantânea.

