Às vezes, as tarefas mais simples e ao mesmo tempo mais difíceis na carreira de um lutador são praticamente a mesma coisa: um único ato, uma única admissão que parece óbvia, mas que pesa. No MMA, reconhecer uma derrota dizendo apenas que “não foi a minha noite” e que o adversário foi, sem contestação, o melhor naqueles minutos dentro do octógono resume bem essa divisão entre o que se entende e o que se engole. Foi nesse tipo de reflexão que Jack Della Maddalena entrou para encarar o momento seguinte depois de sentir na pele o lado duro do esporte.
O australiano, que vinha ostentando uma sequência longa de vitórias e chegou ao combate como campeão, acordou após o UFC 322, em novembro passado, com a sensação amarga de ter sido superado de maneira unilateral por Islam Makhachev. Agora, já com a cabeça voltada para 2026, o lutador tratou de colocar palavras no que sentiu, sem tentar minimizar o resultado. Para ele, a leitura é direta: não foi falta de esforço, mas sim reconhecimento de superioridade do rival.
“Eu acho que perdi para o homem melhor. Havia coisas que eu poderia ter feito melhor, ajustes que dariam mais chance de buscar a vitória, mas é seguir em frente”, declarou o ex-campeão dos meio-médios. Della Maddalena completou que não pretende ficar remoendo o que passou por tempo demais e que o foco agora é retornar ao caminho das vitórias. “A gente não pode ficar parado nisso. Eu quero voltar para o cartel de vencedor e construir a próxima etapa.”
Com 29 anos, ele reforçou a lógica do jogo: dois lutadores entram para lutar e apenas um sai com o resultado favorável. “A questão é que eu precisei aceitar na hora, sem desculpas, que ele foi melhor naquela noite. Se eu quiser vencer da próxima vez, vou ter de melhorar bastante, e o nível técnico precisa subir. Eu estou satisfeito com o que eu tenho para evoluir. Dá para conviver com isso, seguir adiante, continuar lapidando essas habilidades e, espero, conseguir outra oportunidade para enfrentar ele novamente”, disse.
Depois de um descanso merecido para aproveitar o período de Natal e, em seguida, voltar a concentrar totalmente o planejamento para a nova temporada, Della Maddalena está a poucos dias de transformar um item grande na lista pessoal e profissional de objetivos em realidade. O motivo é o próximo compromisso em casa, neste fim de semana, quando terá a responsabilidade de liderar o card como main event na RAC Arena, em Perth.
Não é a primeira vez que ele pisa na arena de Perth. Anos atrás, ele já havia conquistado uma vitória por finalização no primeiro round diante de Randy Brown no UFC 283. Naquele momento, o triunfo parecia funcionar como o primeiro grande “estouro” na carreira, colocando o nome do lutador como candidato real entre os principais. Agora, a história ganha um novo capítulo: a visão do combate, os sonhos e a oportunidade se alinham no mesmo cenário, e o atleta espera que essa volta à posição de destaque na divisão dos 170 libras seja marcada justamente por uma apresentação que o coloque novamente no topo, começando com a chance de ser o homem principal diante do próprio público.
“É muito especial. Até a última luta, os sonhos e as intenções eram ‘na próxima vez que eu lutar aqui, eu quero estar no papel de principal do card’, e chegou a hora”, afirmou o lutador. Ele disse ainda que poder encabeçar o espetáculo na sua cidade natal representa um sonho realizado. “Eu queria muito fazer isso. Lutar na RAC era um objetivo grande, mas o sonho ainda maior era liderar um card importante em Perth com a torcida presente. Então eu não poderia estar mais empolgado.”
Della Maddalena também comentou o estado de prontidão para o compromisso deste sábado. “Eu me sinto bem e estou pronto para entregar uma boa atuação. Existe, sim, pressão por ser o atleta da casa. A maioria das pessoas no local quer que eu vença, mas eu tento não ficar preso demais no resultado”, explicou. Segundo ele, a melhor forma de lidar com a expectativa é focar apenas no que está ao alcance: o desempenho. “Isso são coisas que você não controla. Ganhando ou perdendo, o que importa é entrar e fazer uma performance da qual eu consiga me orgulhar. É mais fácil se concentrar em lutar bem do que tentar colocar uma pressão enorme para vencer a qualquer custo. Eu quero ir lá e mostrar trabalho.”
Assim como acontece com Della Maddalena, Carlos Prates também tem um caminho que começou na Dana White’s Contender Series e terminou levando o brasileiro ao octógono do UFC. Até aqui, a trajetória do lutador tem sido marcada por eficiência e agressividade: em sete lutas na organização, ele soma seis resultados por interrupção e, além disso, recebeu seis bônus de Performance of the Night. Entre os destaques recentes, Prates emplacou duas vitórias consecutivas que chamaram atenção pela forma como finalizou seus oponentes, superando Geoff Neal e, depois, derrotando o ex-campeão Leon Edwards.
Mesmo no único revés dentro do UFC —uma decisão contra Ian Machado Garry no mês de abril do ano passado— Prates conseguiu manter o ritmo e tornar o confronto competitivo até o fim. Agora, com um duelo que o coloca frente a frente com um ex-campeão, ele enxerga a oportunidade como um degrau decisivo. Para o representante do Fighting Nerds, uma vitória pode colocá-lo no grupo de discussões do cinturão, reforçando seu nome como candidato de peso.
Enquanto isso, Della Maddalena entende que a missão no main event de sábado não será simples. Para ele, o oponente é perigoso, completo e capaz de transformar o ritmo do combate rapidamente. “Ele é um lutador incrível, muito perigoso, e ainda por cima é empolgante de assistir. Ele entra num fluxo e parece muito bem. Ele já colocou vários atletas fortes para dormir, então vai ser emocionante”, disse.
O brasileiro destacou a necessidade de estar totalmente ligado durante a luta. “Você tem que estar 100% desperto. Não pode perder o foco em nenhum momento. Mas eu acredito que temos condições de pressionar ele, impor um ritmo difícil e dificultar a leitura. Eu confio nas minhas habilidades defensivas para escapar dos grandes golpes. Estou ansioso para lutar, testar minhas técnicas contra um striker de elite”, completou.
Para o destaque local, voltar a competir neste fim de semana e sair com a vitória carrega dois significados diferentes: um mais pessoal e outro mais profissional. Ainda que a motivação exista nos dois lados, ele afirmou que nenhum supera o outro. “Pessoalmente, a última atuação é um ponto que eu não estava muito orgulhoso. Então meu objetivo aqui é conseguir avançar no caminho e, no domingo, ter uma apresentação da qual eu fique feliz e tenha orgulho de tudo o que mostrei”, explicou.
Já no âmbito profissional, Della Maddalena enxerga a importância de manter-se entre os primeiros colocados da divisão. “Essas lutas mexem muito com a dinâmica. Às vezes alguém entra no lugar de outro, às vezes alguém sai, e tudo muda. Se eu conseguir me firmar como o número um, caso algum confronto caia por algum motivo, eu posso aproveitar a chance e talvez voltar à disputa pelo título mundial. Mas, se tudo seguir como planejado, pode ser que eu precise desta luta e de mais uma contra um dos nomes mais fortes para cravar meu espaço como próximo desafiante. Vamos ver como tudo se desenrola”, afirmou.
Com o pensamento centrado em desempenho e resultado, ele encerrou reforçando o desejo de retornar ao caminho das vitórias. “Estou empolgado para fazer uma boa luta e voltar a vencer”, concluiu.

