“É uma dor que um pai jamais deveria ter que sentir.” Francis Ngannou, ex-campeão peso-pesado do Ultimate Fighting Championship (UFC), volta a lutar neste fim de semana, no sábado, 16 de maio de 2026, quando encara o brasileiro Philipe Lins, em um duelo que abre a programação principal do MVP MMA 1: Rousey vs. Carano, evento que acontece dentro do Intuit Dome, em Los Angeles, na Califórnia, com transmissão exclusiva pela Netflix.
A luta marca apenas a segunda aparição do camaronês desde a morte trágica de seu filho, Kobe, de apenas 15 meses, em 2024. Embora Ngannou tenha prestado homenagens ao garoto publicamente após retornar à competição ainda naquele ano, ele raramente havia entrado em detalhes sobre a perda — até agora.
Em uma entrevista bastante carregada de emoção com Daniel Cormier, ex-campeão peso-pesado do UFC e também alguém que passou pela mesma situação com a perda de um filho, Ngannou explicou como o acontecimento alterou sua forma de enxergar a vida e o próprio esporte. Segundo ele, o que aconteceu é algo que não se esquece, mas que muda a perspectiva: “É uma coisa que você nunca vai esquecer, mas com certeza te faz olhar a vida de outro jeito”, afirmou.
Ngannou contou que, no período, estava vivendo em modo acelerado, sempre “no caminho”, como se tentasse desligar as emoções. “Aconteceu em um momento estranho da minha vida, em que eu estava sempre em movimento e me perguntava se eu ainda tinha emoções… mas não era isso. Eu só estava ignorando coisas”, disse.
O lutador também afirmou que a tragédia serviu como um “gatilho” para mostrar que ele ainda era humano e ainda sentia: “Foi um gatilho para eu perceber que eu ainda sou sensível e que eu ainda sou uma pessoa”, completou. Ele ressaltou ainda a fragilidade da vida após o choque, descrevendo que, mesmo lutando e acreditando que estava no controle de sua narrativa, qualquer instante pode ser o último. “Você chega lá e percebe como a vida é frágil. Eu pensava: ‘Eu estou aqui lutando por isso, achando que eu sou aquilo’, mas cada momento pode ser o seu último”, declarou.
Na sequência, Ngannou relembrou um episódio ainda mais assustador envolvendo sua filha meses após a morte de Kobe, um momento que evidenciou o quanto o trauma ficou profundo. “Eu lembro de alguns meses depois que meu filho faleceu. Eu estava com a minha filha e ela estava com um resfriado. Em algum momento ela parou de reagir e começou a ficar cansada… e foi o maior medo da minha vida. Era uma reação normal da minha criança, mas pra mim foi como se eu estivesse traumatizado”, relatou.
O ex-campeão também admitiu que houve um período em que ele simplesmente não queria mais competir. “Eu não queria continuar lutando. Não existia motivo”, disse. “Eu não encontro propósito nisso. O motivo de eu lutar era por segurança e por uma vida melhor para a minha família, só que eu me senti tão impotente diante da situação.”
Ele então questionou o próprio sentido do combate após a perda. “Eu ficava pensando: ‘Qual é a graça de lutar se eu não consigo lutar pelo meu filho? O que eu estou procurando?’”, afirmou.
Ngannou ainda revelou que a última lembrança que guarda do filho continua assombrando sua cabeça. “Eu penso na última vez que eu vi ele — era eu saindo do apartamento, indo para o elevador. Meu irmão estava com ele, e ele estava chorando porque não queria que eu fosse, mas eu sabia que eu ia voltar e que tudo ia ficar bem. Tem momentos que a gente dá como garantidos. Depois que ele morreu, eu pensei: ‘Aonde eu estava indo? Nada mais importava. Eu deveria ter ficado ali.’ Aquilo é a última lembrança dele na minha mente. Eu deveria ter voltado”, disse.
No fim, Ngannou explicou que, após a morte de Kobe, chegou muito perto de abandonar completamente os esportes de combate. Para ele, lutar já não parecia essencial. Contudo, depois de meses lidando com o luto e refletindo, o ex-campeão do UFC concluiu que seguir na carreira era a forma mais correta de honrar a memória do filho.
Agora, cada caminhada até o octógono carrega um significado totalmente diferente para “The Predator”. E o retorno neste sábado não será apenas mais um compromisso no calendário: será mais um passo dentro de uma jornada íntima, de tentativa de cura enquanto carrega Kobe consigo para sempre.

