O técnico de Sean Strickland, Eric Nicksick, afirmou que nada do que foi visto na semana que antecedeu o duelo contra Khamzat Chimaev foi inventado. Para ele, a animosidade demonstrada antes da luta era genuína, assim como a forma encontrada pelos dois para “enterrar o machado” depois de um combate intenso, que durou 25 minutos no octógono.
Strickland reconquistou o cinturão dos pesos-médios do UFC ao vencer Chimaev por decisão dividida no main event do UFC 328, realizado neste sábado em Newark, no estado de Nova Jersey. A preparação do confronto foi marcada por declarações afiadas de ambos os lados, o que levou a um reforço de segurança durante a semana do evento. Mesmo assim, Chimaev ainda chegou a acertar um chute em Strickland no momento em que encerrava a coletiva pré-luta do UFC 328, e a troca de veneno seguiu à flor da pele até a noite do combate.
Antes de a luta começar, no entanto, os atletas fizeram toques de luva, e, após o fim do confronto, trocaram um abraço. Chimaev colocou o cinturão no ombro de Strickland como novo campeão, o campeão pediu desculpas pela maneira como teria promovido a luta, e o clima parecia ter mudado. Esse cenário abriu espaço para debates sobre se a rivalidade foi “de verdade” e também sobre o papel da própria promoção do combate.
Nicksick diz que a “briga” foi real e cita comparação do manager
Em conversa com Nicksick, o treinador explicou que não houve nada fabricado no que foi observado ao longo da semana. Ele também revelou que o manager do lutador usou uma comparação que resumiu bem o contraste entre o clima explosivo antes do combate e a conduta dos dois dentro do octógono após o apito final.
“Era uma briga”, afirmou Nicksick. “100% era uma briga. E é engraçado. Você e eu falamos sobre isso: você me perguntou o que eu esperava que acontecesse depois, e eu disse que torcia para eles apertarem as mãos e seguirem em frente, talvez um dia o Khamzat voltar a treinar com a gente na academia. Eu realmente esperava isso, mas era realista? Provavelmente não.”
O treinador continuou: “Esses caras não gostavam um do outro. E eu odeio usar essa analogia, mas eu achei perfeita. O Lance, nosso manager, falou: ‘Sabe o que é isso? É clareza pós-vida íntima, e ele está certo’.”
Na sequência, Nicksick detalhou a ideia: “É como se esses dois tivessem se odiado, quisessem se matar, e depois fizessem 25 minutos de luta, um contra o outro, até uma decisão dividida bem apertada. Vocês tiraram anos da vida um do outro. Como é que você não vai respeitar a pessoa do outro lado? Pelo menos nos 15 minutos ou 10 minutos depois da luta, existe algum ponto em comum. E o Lance olhou para mim e falou: ‘Sabe o que isso é? É clareza pós-vida íntima’. Eu disse: ‘Irmão, você acertou em cheio’.”
Treinador diz que houve respeito mesmo com rivalidade
Apesar de Strickland e Chimaev terem demonstrado um clima extremamente hostil um com o outro, Nicksick garantiu que ele e o adversário permaneceram tranquilos durante todo o período. Ele ainda contou que as equipes se cruzaram mais cedo durante a semana e que a interação foi marcada por respeito, inclusive com Chimaev cumprimentando Nicksick com um abraço no hotel em que os lutadores estavam hospedados.
Nicksick reconheceu que percebeu a presença reforçada de segurança, mas afirmou que aquele momento foi o que lhe deu a certeza de que, no geral, tudo seguiria de maneira profissional. Para ele, brigar faz parte de uma dinâmica estranha e visceral que acompanha o esporte.
“Foi muito real até certo ponto”, explicou. “Esses caras não gostavam um do outro. Teve muita troca de farpas por anos entre eles. Então as pessoas precisam entender isso: é competição. Obviamente, naquele momento eles não se gostavam, mas você vai para a luta. Você já esteve em lutas, né? Você luta na escola, e de repente você está apertando a mão do cara. ”
O treinador ampliou a reflexão com exemplos pessoais: “Muitos dos meus melhores amigos, que eu continuo amigo até hoje, eu provavelmente briguei com eles. Foi assim que alguns de nós se conheceram. O meu melhor homem no meu casamento eu briguei com ele e depois a gente ficou ‘ah, você é meu parceiro agora’. É isso. E eu fico até feliz de ver que esses dois demonstraram esse tipo de esportividade sabendo o quanto se odiavam. E acho que é um bom recado para todo mundo: eles são competidores, mas no fim das contas também são seres humanos, e existe respeito entre todos quando vocês passam 25 minutos numa jaula tentando acabar com o outro.”
Strickland chega ao segundo reinado após virada em grande noite
Com a conquista, Strickland passou a ser campeão duas vezes. Antes disso, no UFC 293, em setembro de 2023, ele dominou Israel Adesanya para conquistar seu primeiro título, fazendo isso também como grande azarão.
Depois de uma fase de turbulência na relação entre Nicksick e Strickland desde a derrota do lutador para Dricus du Plessis no UFC 312, a parceria voltou a engrenar. O treinador descreveu o momento como algo especial e destacou que, juntos, eles alcançaram um feito considerado extraordinário.
Treinador compara a conquista sobre Chimaev com o título diante de Adesanya
Questionado se vencer Chimaev foi mais “doce” do que o triunfo sobre Adesanya com todas as variáveis em jogo, Nicksick respondeu que não se tratava exatamente de sabor, mas de uma diferença de capítulos na carreira.
“Eu não diria que é mais doce, só diferente”, disse. “Elas são todas muito doces… É como ter três filhos e amar cada um deles, mas eles são diferentes, né? Você ama cada um, mas são todos distintos. Eles são capítulos diferentes da sua carreira de treinador, da sua carreira como lutador e de tudo mais.”
Ele completou: “Mas esta aqui é, com certeza, especial por causa de algumas dessas altos e baixos que Sean e eu já tivemos no passado. Só que eu te digo: eu não me arrependo, porque isso me fez uma pessoa melhor. Isso me fez um treinador melhor, e eu acho que aproximou ainda mais eu e o Sean.”

