Ronda Rousey volta ao octógono, mas Matt Brown critica luta e retorno

Ronda Rousey tinha vários motivos para retornar ao MMA uma década depois de duas derrotas seguidas no UFC, encerrando sua trajetória com duas quedas duras e, principalmente, com a tarefa de fechar a história de uma forma diferente. Depois de tanto tempo fora, conquistar uma vitória no retorno parecia ser parte central desse reencontro com o octógono — e ainda mais quando a adversária escolhida para a noite era uma antiga “promessa” do passado: Gina Carano.

Apesar de todo o barulho em torno da chance de finalmente encarar Carano, luta que o UFC tentou viabilizar por mais de uma década, o desfecho em 17 segundos com uma finalização por chave de braço quase deixou um gosto vazio. Com a narrativa de que Carano teria perdido cerca de 100 libras para entrar em forma, além de ter passado meses treinando com a mesma base de treinadores e atletas que trabalham com antigos campeões do UFC, o que se viu no começo foi outra coisa: a brasileira dos holofotes do retorno não conseguiu acompanhar o ritmo e foi claramente superada assim que a ação começou.

O combate começou e Carano abriu mão de uma tentativa de queda logo de início. Em seguida, caiu em uma finalização encaixada por Rousey: um mata-leão de braço (armbar) que encerrou a luta aos 17 segundos do primeiro round. Com o triunfo, Rousey se aposentou novamente — desta vez com vitória no retrospecto do retorno, algo que não havia acontecido nas duas últimas aparições. Mesmo assim, o veterano do UFC Matt Brown não enxergou motivos para transformar esse resultado em motivo de festa.

Em entrevista no programa “The Fighter vs. The Writer”, Brown foi direto ao avaliar que, para ele e para muita gente, a noite não trouxe elementos que tornassem o público mais fã de Rousey. O lutador afirmou não gostar da forma como ela se comportou, nem da maneira como se expressou. Na sequência, Brown colocou em dúvida o lado mental e disse acreditar que ela precisaria de terapia, além de classificar a postura da campeã como “narcisista”.

Brown também rebateu a justificativa de retorno baseada em dinheiro. Para ele, mesmo que seja compreensível voltar por contrato e oportunidade financeira, vencer não teria um fator de redenção no contexto do confronto. O veterano ressaltou que Rousey enfrentou uma atleta que não competia havia 17 anos e questionou que tipo de orgulho existiria em um resultado desse tipo.

O problema, segundo Brown, começa antes mesmo da luta, com a forma como Rousey promoveu o evento. O veterano disse que a divulgação foi marcada principalmente por ataques a ex-dirigentes do UFC e por provocações a outros lutadores, citando inclusive Kayla Harrison, atual campeã do peso-galo na ocasião.

Além disso, Brown mencionou que Rousey também direcionou críticas ao alto executivo Hunter Campbell, a quem ela teria atribuído a responsabilidade por a luta com Carano não ter avançado quando foi apresentada como possibilidade no passado.

Quando chegou a hora de falar sobre a adversária, porém, Rousey adotou um discurso diferente. Brown destacou que, diante do confronto real, a lutadora falou com elogios sobre Carano como pessoa, com uma postura bem mais voltada a afeto do que a uma disputa acalorada na preparação. Para ele, a impressão foi de que nada da situação parecia “boa” ou “natural”.

Brown afirmou ainda que, em sua visão, o card inteiro foi constrangedor do começo ao fim. Ele criticou o modo como Rousey fazia a “cara de ameaça” durante a luta, enquanto demonstrava muita raiva, e também o clima de construção em torno do evento, com tudo o que ela teria dito antes do combate. Para o comentarista, a combinação de provocações constantes a Hunter Campbell e uma personalidade marcada por vingança, irritação e frustração criaram uma imagem distante do que ele considera apropriado.

Na avaliação de Brown, o comportamento indicaria a necessidade de buscar ajuda profissional, ter amigos e encontrar um caminho para se acalmar. Ele ainda associou a discussão à ideia de desenvolver mais controle emocional e serenidade.

Mesmo com as críticas, Brown admitiu que tinha confiança em Carano antes do evento. A expectativa, segundo ele, vinha do entendimento de que a rival teria treinado e permanecido pronta para lutar mesmo enquanto concentrava grande parte do foco em sua carreira como atriz.

Com o desenrolar da luta, no entanto, Carano não demonstrou sinais de um período consistente de atividade. Brown apontou que a adversária parecia exatamente como alguém que não havia competido nem treinado com frequência durante os 17 anos de ausência. Para ele, em outras palavras, Carano teria poucas chances reais de vencer, e Rousey apenas dominou a situação com superioridade.

Brown explicou que um retorno para vencer alguém que não lutava havia 17 anos não seria um bom motivo para se sentir tão satisfeito — ainda mais se a motivação fosse apenas financeira. Ele disse que respeita quem volta por dinheiro, mas questionou como o público deveria reagir a esse tipo de vitória. No fim, a percepção do veterano foi de “cringe” do início ao fim, sem algo que gerasse empolgação.

Antes de voltar a competir no sábado, Rousey falou sobre a relação conturbada com o esporte após ter saído do UFC e chegou a demonstrar dúvida sobre conseguir estar em um evento sem ser vaiada de forma agressiva. Brown também interpretou que parte da dificuldade da lutadora após as duas últimas lutas no UFC foi simplesmente desaparecer dos holofotes e não encarar diretamente as derrotas.

Mesmo na preparação para o combate de sábado, Brown disse que Rousey mencionou com frequência a ideia de “deixar o esporte de lado” se saísse vitoriosa, mas raramente — ou nunca — citou Holly Holm ou Amanda Nunes, as duas atletas que a venceram nas derrotas em sequência que marcaram seu fim anterior no UFC.

Por isso, Brown acredita que Rousey perdeu uma oportunidade de ouro para virar a página e reparar erros do passado durante a promoção do duelo com Carano. Na visão dele, o momento era perfeito para uma redenção diante dos fãs e da comunidade do MMA, mas isso não teria acontecido. Ele reconheceu que outras pessoas podem enxergar qualidades redentoras onde ele não viu, porém afirmou que, para si, parecia ser sempre a mesma Ronda, a mesma história repetida inúmeras vezes.

O veterano também reforçou que, para ele, não era uma narrativa interessante nem divertida. Brown ainda mencionou que comentários envolvendo Khamzat Chimaev não chamaram sua atenção, e resumiu dizendo que não sentia autenticidade. Ele voltou a afirmar que acredita que Rousey é narcisista e que precisaria, de fato, buscar terapia.

Com Rousey novamente anunciando aposentadoria e planejando crescer sua família com o marido Travis Browne, existe a chance de ela se afastar mais uma vez do foco quando o assunto for combate. Brown ainda relembrou que a lutadora teria sinalizado interesse em continuar trabalhando com a Most Valuable Promotions, ligada a Jake Paul, em algum papel executivo, mas garantiu que sua carreira como atleta estaria encerrada.

Ao final, Brown voltou ao tema do carinho do público. Para ele, havia uma chance real de transformar a recepção em apoio — uma entre muitas oportunidades que Rousey teria tido. O veterano afirmou que ela poderia ter atraído ainda mais atenção se tivesse saído mais humilde, falando de forma adequada e deixando em segundo plano conflitos com Hunter Campbell e com o UFC, além de não transformar a luta em uma tentativa de “sair por cima” apenas no resultado.

Brown questionou quem estaria cuidando da comunicação pública de Rousey, dizendo que, com fama e dinheiro, ela provavelmente teria alguém na função de assessoria orientando o discurso. Na visão dele, bastaria que ela falasse do jeito certo, mesmo que parte disso fosse construído. Para o veterano, o problema é que Rousey não consegue manter esse tipo de postura — e não consegue evitar, segundo ele, o excesso de falsidade que o público percebe.

O programa “The Fighter vs. The Writer” segue lançando novos episódios todas as terças-feiras, com versões em áudio disponíveis em plataformas como Apple Podcasts, Spotify e iHeartRadio.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.