O UFC BJJ, braço do Ultimate voltado ao Brazilian Jiu-Jitsu, anunciou a criação de uma nova linha de eventos nos moldes de torneios abertos já tradicionais no cenário do grappling, como os formatos amplamente usados pela IBJJF e pela ADCC. A proposta é lançar uma série de competições com inscrição aberta a diferentes níveis técnicos e faixas etárias, com a promessa de servir como porta de entrada dentro do próprio sistema da marca.
Claudia Gadelha crava o “UFC BJJ Opens” como caminho de acesso
A executiva do UFC BJJ, Claudia Gadelha, apresentou a novidade em um comunicado feito em meio ao calendário recente da modalidade. Em tom de oficialização do projeto, ela afirmou: “Estamos iniciando oficialmente hoje os novos ‘UFC BJJ Opens’. Esse é o ponto de entrada no ecossistema do UFC BJJ”.
Na mesma fala, Gadelha reforçou a ideia de capilaridade do torneio, destacando que se trata de uma série de disputas de jiu-jitsu em que atletas de qualquer nível e de diferentes idades podem se inscrever e competir sob a bandeira do UFC BJJ. “São torneios de jiu-jitsu nos quais qualquer pessoa, independentemente do nível ou da idade, pode registrar e lutar dentro do guarda-chuva do UFC BJJ”, disse ela.
Datas e locais: Las Vegas e Phoenix no início do ciclo
O primeiro par de eventos do “UFC BJJ Opens” já tem calendário definido para as próximas semanas: o torneio acontece em Las Vegas nos dias 22 e 23 de agosto. Já o segundo encontro está marcado para Phoenix, com realização em 12 de setembro.
Dana White vende a ideia de “competição para ganhar o direito”
O presidente do UFC, Dana White, também entrou na discussão ao ler o anúncio e tratá-lo como uma etapa de progressão dentro da estrutura do UFC BJJ. “Seja você iniciante, um veterano experiente ou alguém tentando conquistar sua chance em um título do UFC BJJ, os UFC BJJ Opens são a sua oportunidade de se provar e, possivelmente, virar campeão um dia”, declarou White.
Além disso, o evento é comercializado como uma espécie de “entrada” em que campeões competem para obter o direito de disputar as próximas oportunidades dentro do sistema do UFC BJJ.
Critica ao modelo: foco em receita e “encaixe” questionável
Apesar do discurso de porta de entrada, o formato levanta dúvidas sobre a coerência da proposta. O caminho apresentado, na prática, parece se aproximar mais de um modelo em que o atleta paga para competir em uma competição estruturada como vitrine, do que de uma rota que realmente elimine barreiras financeiras do esporte.
Há também um ponto levantado: se a ideia central fosse construir um caminho profissional rumo ao título, o torneio não precisaria existir com inscrições voltadas a categorias infantis e a faixas voltadas a praticantes amadores mais velhos, como “faixa branca” em idade avançada. Além disso, o UFC BJJ Opens está com inscrições abertas para modalidades com kimono (gi), enquanto a promoção principal do UFC BJJ, em seu formato geral, é centrada no no-gi.
Taxas de inscrição: US$ 175 + adicionais por divisões
De acordo com as informações divulgadas pelo site do UFC BJJ Opens, cada atleta precisará pagar uma taxa base de US$ 175. Esse valor pode cair para US$ 150 para quem fizer a inscrição com antecedência de alguns meses. Caso o competidor queira participar de mais de uma divisão, haverá um custo extra de US$ 75 por cada divisão adicional incluída no cadastro — por exemplo, entrar tanto em categorias com gi quanto em no-gi, ou optar por disputa “absoluta”.
Para contextualizar o peso financeiro do torneio, as taxas do UFC BJJ Opens são descritas como superiores ao valor típico de um Open da IBJJF e apenas um pouco abaixo do custo anual de participar do Campeonato Mundial da IBJJF, que pode variar em valores próximos a US$ 153, US$ 186 ou US$ 204.
Ainda assim, eventos desse tamanho costumam atrair milhares de competidores, o que torna a iniciativa um movimento de negócio promissor para o UFC BJJ. O texto também ressalta que, apesar da justificativa pública, não é difícil enxergar o interesse comercial por trás do desenho do torneio. Tanto IBJJF quanto ADCC, historicamente, se beneficiaram desse modelo, monetizando uma grande base de atletas e praticantes recreativos — e, em muitos casos, inclusive ajudando a condicionar os principais grapplers do mundo a também pagarem para competir.
Executivos do UFC BJJ mudam o discurso sobre atletas e dinheiro
O debate ganha força quando o assunto é o histórico de cobrança e remuneração no jiu-jitsu. Por anos, o dinheiro foi um problema recorrente na cena: muitos dos melhores grapplers do planeta reclamavam tanto de remuneração insuficiente quanto do fato de precisarem bancar custos elevados para competir a cada temporada.
Durante décadas, estrelas do grappling passaram pelo circuito buscando a “credibilidade” e o prestígio de medalhas em instituições como IBJJF e ADCC, na esperança de que isso virasse retorno financeiro por meio de venda de instruções, seminários e trabalho como treinador. Nesse contexto, a criação da CJI (com pagamentos milionários recentes) é citada como uma iniciativa feita, em parte, para protestar contra estruturas consideradas limitadas de remuneração nas principais organizações do esporte.
Enquanto outras marcas cresceram no cenário profissional — com exemplos como WNO e Polaris — o UFC BJJ, e antes dele o UFC FPI, é apontado como parte do grupo que abriu mais possibilidades para que atletas pudessem ganhar como competidores. Ainda assim, o anúncio recente do “UFC BJJ Opens” é tratado como um passo em direção contrária.
Gadelha e Tecci já criticaram o mesmo modelo
Um aspecto central da crítica é que executivos do UFC BJJ, como Claudia Gadelha e Stephen Tecci, já haviam questionado exatamente esse tipo de formato. Em 2025, Gadelha apontou atletas como um dos fatores para o jiu-jitsu ainda não ser visto como um esporte plenamente profissional, colocando a responsabilidade na disposição dos competidores em aceitar condições desfavoráveis.
“O principal motivo para o jiu-jitsu ainda ser amador… e para ele não ter virado um esporte profissional ainda… são os próprios atletas”, afirmou Gadelha na época. Na sequência, ela completou a crítica dizendo que o atleta “aceita ser vendido por pouco” e entra para entregar as melhores performances da carreira apenas para conquistar uma medalha, sem retorno compatível.
Já Tecci, em comentários anteriores sobre o tema, resumiu a questão ao apontar: “Se alguém está ganhando dinheiro com você, por que você não está ganhando dinheiro com você?”.
Transição do pro: melhora em ADCC, reação da IBJJF e novo “recorte” do mercado
Com a expansão rápida do grappling profissional, a ADCC é citada como uma organização que precisou ajustar sua estrutura de pagamentos. A IBJJF, por sua vez, passou a promover eventos profissionais próprios para acompanhar a evolução do cenário.
Em vez de continuar na direção que parecia beneficiar o esporte com melhores pagamentos, a iniciativa descrita no texto é interpretada como uma exploração do modelo tradicional de torneios, especialmente ao incluir monetização recorrente. A avaliação é de que, ao copiar o desenho de Opens já consolidado, o UFC BJJ buscaria “seu pedaço do bolo”, repetindo uma estrutura que, segundo o argumento, exige investimento do atleta para obter oportunidades.
Planejamento interno: promessa de banir atletas do UFC BJJ em eventos paralelos
Apesar de o UFC BJJ Opens seguir a linha dos torneios abertos, o texto lembra que Claudia Gadelha já havia sinalizado um posicionamento diferente no passado: a executiva teria anunciado a intenção de impedir atletas do UFC BJJ de competirem em IBJJF e ADCC.
Com isso, o lançamento do “UFC BJJ Opens” passa a ser visto como um projeto que tenta, ao mesmo tempo, atrair praticantes para a estrutura do próprio UFC BJJ e criar um ambiente de exclusividade que pode influenciar o calendário e as escolhas competitivas dos atletas.

