Se você gosta de acompanhar talentos em ascensão e de ser aquela pessoa do seu grupo que identifica cedo quem pode “estourar” nas divisões, o card deste fim de semana na Meta APEX foi montado pensando exatamente nesse tipo de fã. Há vários nomes jovens e em fase de consolidação, mas um dos prospectos mais interessantes do evento acaba figurando até como um dos principais destaques: Gabriel Bonfim, com cartel de 19 vitórias e 1 derrota, ainda sem chegar aos 30 anos, entra como um nome fora do Top 10 rumo ao seu confronto contra o ex-campeão dos meio-médios Belal Muhammad.
Mesmo sem a participação de “Marretinha”, o grupo de lutadores em crescimento apresentado nesta programação está entre os mais fortes do ano. É nesse contexto que Ziam aparece como um exemplo de como a trajetória dentro do octógono pode ter curvas inesperadas. Ele chegou ao UFC aos 22 anos e, nas primeiras oportunidades, acabou sofrendo uma interrupção ainda no primeiro round diante de Terrance McKinney. Depois disso, porém, Ziam emendou uma sequência impressionante: venceu seis lutas seguidas, ultrapassou o ex-adversário na projeção de carreira e saltou para a 14ª posição no ranking dos leves.
Mesmo ranqueado, Ziam ainda vive uma espécie de “sombra” diante de atletas mais ativos e mais promovidos, como o possível cabeça de cartaz Manuel Torres e o australino Quillan Salkkilld em alta. Ainda assim, não há como diminuir o que ele já mostrou: trata-se de um lutador com base completa, tamanho e envergadura acima da média para a categoria, capaz de impor dificuldades tanto no chão quanto em pé. A forma como os confrontos e a posição no card acontecem também influencia bastante o barulho ao redor de um atleta, e até aqui Ziam não recebeu tantos privilégios nesse sentido — mas a tendência é que isso possa mudar com o seu compromisso contra Tom Nolan, uma das maiores apostas no peso leve para o momento.
Nolan chega vivendo uma sequência de quatro vitórias consecutivas, mas com apenas cinco lutas dentro do UFC, o que reforça a ideia de que Ziam ainda é visto por muitos como um talento pouco devidamente reconhecido. O australiano, o “Smile Killer”, certamente tem potencial e já demonstrou que pode crescer, porém o caminho dele até aqui colocou menos adversários consolidados do que a fase atual de Ziam já sugere que mereça. A aposta para este sábado é clara: se o lutador de 29 anos, conhecido pelo comportamento mais tranquilo, estender sua sequência para sete vitórias, a chance de usar o microfone após o triunfo para exigir um oponente do Top 10 aumenta bastante — e, pelo menos, abre espaço para um duelo imediato contra outro nome ranqueado.
Entre o programa de oportunidades que ele recebeu e o início de carreira dentro do UFC, nem quem olha de fora conseguiria imaginar o perfil de Iwo Baraniewski. Antes das lutas, o polonês chamou atenção por ser faixa-preta em judô e, na prática, por atuar como grappler de ofício. O contrato veio rápido: ele conquistou a chance de lutar no UFC em apenas 20 segundos, finalizando Mahamed Aly na Semana 6. Depois, na estreia, Baraniewski entrou em ação no UFC 323, em dezembro, e teve um começo ainda mais explosivo: no seu primeiro compromisso, ele enfrentou Ibo Aslan em uma luta intensa que durou apenas 89 segundos e terminou com a manutenção do invicto do polonês.
Já nos primeiros meses do ano, “Rudy” voltou a lutar e, novamente, acelerou a história ao interromper Austen Lane em apenas 28 segundos. No total são três lutas, três vitórias, somando apenas 137 segundos de trabalho, além de dois bônus de Performance of the Night. Para um peso-pesado leve como ele, o início é mais do que promissor. Baraniewski chega ao desafio de sábado com um cartel de 8-0 e com a expectativa de ampliar sua sequência e o próprio “reel” de finalizações, agora contra Junior Tafa — um adversário que também costuma ter dificuldade em sustentar combates longos e que, por estilo, não combina com a paciência necessária para um duelo morno.
O que torna Baraniewski um prospecto tão intrigante na divisão dos 205 é justamente a combinação improvável: em teoria, ele carrega repertório de grappling no bolso, ao mesmo tempo em que exibe a força característica que chama atenção desde já no seu jogo. Essa mistura pode transformar o polonês em uma ameaça real no futuro, especialmente conforme ele continuar ganhando vitórias com impacto. Caso ele atravesse esse confronto explosivo diante de Tafa e volte a registrar mais uma finalização contundente, é esperado que o nome dele ganhe ainda mais espaço nas conversas durante a segunda metade do ano.
Entre os atletas em ascensão, Santiago Luna também chama atenção pela forma como entrou em cena. A razão é simples: ele assumiu a vaga de Victor Henry para encarar Bryce Mitchell neste fim de semana, e a oportunidade é valiosa demais para medir, na prática, o nível dele no peso-pena. Luna, que ainda está invicto e tem 21 anos, já conseguiu duas vitórias dentro do octógono. Em Noche UFC, em setembro, ele finalizou Quang Le ainda no primeiro round. Depois, em fevereiro, em um duelo na Cidade do México contra Angel Pacheco, ele foi testado em um combate de maior duração e conseguiu passar pela barreira do tempo ao ir até o fim pela primeira vez na carreira.
Essas lutas ajudaram a construir a imagem de que ele “deveria” ter vencido e realmente venceu, mas agora o cenário muda: Luna entra contra um nome experiente e que chega vindo de uma vitória boa dentro da divisão. O confronto também serve como termômetro de projeção e de timing para o atleta. Mitchell é um lutador com um grappling capaz de sufocar o ritmo do adversário e, em muitos momentos, cortar o ímpeto ofensivo desde cedo. Ele já provou o perigo que representa ao vencer nomes do nível de Edson Barboza, Dan Ige e Said Nurmagomedov. Nesse sentido, a chance de Luna ir para o chão e acabar superado tecnicamente existe — principalmente se ele não estiver preparado para encarar um nível de competição mais alto do que o enfrentado até aqui.
Ao mesmo tempo, é justamente por isso que a troca de última hora faz sentido. Se Luna entrar na Meta APEX no sábado e conseguir ao menos uma boa apresentação mesmo em caso de derrota, ainda assim o resultado positivo aparece: ele força Mitchell a trabalhar por uma vitória. E, se Luna vencer, a recompensa tende a vir rápido, como um caminho mais direto em direção ao ranking e a possibilidade de ter um compromisso mais adiante contra alguém que esteja devidamente ranqueado, com número ao lado do nome. No fim, a mensagem que fica é a de sempre para quem quer crescer no MMA: estar preparado é essencial, mas saber quando aceitar o desafio certo — ainda que em cima da hora — pode ser o passo decisivo para transformar potencial em posição.
