Uma das coisas mais legais de escrever por tanto tempo esse tipo de acompanhamento é observar, com o passar dos meses e temporadas, atletas que já passaram por aqui encontrando seu caminho na escada divisional até chegarem a posições de destaque em suas respectivas categorias. E não é apenas a presença de campeões que deixa o cenário interessante — eventos recentes mostram como a dinâmica muda rápido quando surgem novos nomes. Neste fim de semana, por exemplo, há um duelo principal entre dois meio-médios que ainda estão a poucos anos de serem “regulares” nessa vitrine e que agora dividem o palco do main event. Enquanto isso, na luta co-principal, um talento em ascensão na divisão dos leves encara um veterano consolidado, em um confronto que promete medir a maturidade do projeto. No meio dessa mistura de juventude e experiência, vale destacar três nomes que estão subindo com força e que merecem atenção imediata.
O primeiro deles é o “Balkan Bear”, que causou impacto imediato nos pesos-pesados ao atropelar seus adversários iniciais no UFC com rapidez, precisando de menos de dois minutos para dominar Elisha Ellison e Louie Sutherland. Com isso, ele chega ao RAC Arena neste fim de semana para encarar Shamil Gaziev em um compromisso no card principal. Aos 31 anos, Pericic tem exatamente o tipo de presença que o apelido sugere: é um homem enorme, com 1m98 (6 pés e 5 polegadas) e que na pesagem fica pouco abaixo do limite da categoria. O ponto que torna a história dele ainda mais intrigante, porém, é a mobilidade. Diferente de boa parte dos pesos-pesados, ele se movimenta com mais leveza e com um perfil atlético que pode fazer diferença tanto para entrar quanto para sair das trocas.
Como ele soma apenas sete lutas profissionais, ainda faz sentido tratar Pericic como um trabalho em construção. Ainda assim, o ritmo com que ele evoluiu e o pouco tempo de experiência no currículo não diminuem o mérito do que já foi apresentado. Pelo contrário: a tendência é que o crescimento continue acontecendo conforme ele acumule mais rounds dentro do octógono e tenha ainda mais tempo de treino ao lado do staff do City Kickboxing, onde ele vem ajustando detalhes técnicos e refinando o jogo de acordo com o nível dos adversários.
Gaziev, por sua vez, representa uma elevação clara em relação aos dois últimos rivais de Pericic. O russo já soma três vitórias no UFC e também enfrentou nomes que já passaram pelo Top 10. Ele também construiu parte do sucesso no fato de ser, em muitos momentos, o lutador maior e mais forte dentro da jaula. Só que esse cenário pode não se repetir diante de Pericic, e justamente aí mora a curiosidade para o duelo deste sábado: como Gaziev reage quando encontra um peso-pesado com mais agilidade, que consegue impor dinâmica e não apenas força bruta.
Se Pericic conseguir emplacar o terceiro triunfo consecutivo — e, principalmente, se fizer isso com autoridade e “estilo” — não seria surpresa vê-lo receber um empurrão ainda mais rápido no ranking. A divisão dos pesos-pesados, que vive momentos de reorganização, pode começar a ficar mais clara conforme nomes se separem por classificação, e uma sequência como a dele tende a acelerar a percepção dos coordenadores do topo.
Pericic não é o único representante do City Kickboxing que chama atenção neste fim de semana. O companheiro de equipe Rowston também chega com temperatura alta ao seu terceiro compromisso no UFC, quando encara Robert Bryczek. Depois de sentir o gosto da derrota na estreia dele no Dana White’s Contender Series, Rowston emendou uma sequência impressionante de seis vitórias consecutivas. Foram duas no circuito regional, mais uma na fase em que garantiu contrato na DWCS na temporada passada, e depois mais duas em cada uma das primeiras aparições no UFC, mostrando consistência em diferentes contextos e contra estilos variados.
Ainda com 31 anos e vindo de Sydney, Rowston carrega o histórico de um atleta que já foi associado ao apelido “The Battle Giraffe”. Mas, mais recentemente, ele mudou a forma como costuma finalizar. Em vez de depender tanto de finalizações por submissão, ele passou a ter um comportamento mais “explosivo” como nocauteador: nas três vitórias mais recentes, ele encerrou dentro do tempo regulamentar por causa do trabalho à distância. Ele apresenta fluidez, potência e, principalmente, sabe usar o alcance para controlar o ritmo. E, assim como Pericic, a expectativa é que ele continue melhorando com mais rodagem na divisão e com mais tempo trabalhando no ambiente de alto nível em Auckland.
O confronto com Bryczek, porém, não é apenas mais um degrau simples. O polonês chega como adversário que pode ser um bom “termômetro” de transição, já que vem de sua primeira vitória no UFC: foi um encerramento no terceiro round, com parada do tipo stoppage contra Brad Tavares, um nome que já era referência na divisão. Além disso, ao longo do histórico, Bryczek costuma aceitar as trocas e avançar para dentro do combate. Essa disposição será importante para encurtar a distância e encontrar o corpo a corpo contra Rowston, mas também existe um risco claro no caminho: quando você tenta pressionar um atleta que trabalha muito bem o espaço, pode ser punido na entrada ou no reposicionamento.
Rowston, por outro lado, tem motivos para voltar com confiança. Ele chegou a defender uma preparação com giro rápido após conquistar contrato e, no ano passado, competiu em Perth. Agora retorna em meio a uma fase forte, e uma terceira vitória seguida pode colocá-lo ainda mais perto do ranking. Mais do que isso, dependendo do desempenho, existe a possibilidade de ele abrir caminho para um encontro futuro contra alguém que já esteja no grupo de elite, com um número ao lado do nome na hierarquia dos meio-médios.
Enquanto Pericic e Rowston fazem barulho logo nas primeiras aparições no octógono, Micallef tem um perfil diferente dentro do grupo: o “silent killer” chega mais discreto, mas com números que pesam. Ele entra neste fim de semana com campanha de 2 a 0 no UFC, se preparando para enfrentar Themba Gorimbo. Integrante da turma de 2024 do Dana White’s Contender Series, Micallef chamou atenção logo no começo ao vencer Kevin Jousset na estreia, no UFC 312. Depois, no UFC 325, ele mostrou mais uma camada de evolução ao enfrentar Oban Elliott: no meio do primeiro round, passou a machucar o adversário e, em seguida, rapidamente mudou o plano, indo para as costas e finalizando “The Welsh Gangster” com um mata-leão em transição, um rear-naked choke. Agora com 27 anos, ele soma 9 vitórias e 1 derrota no total e chega com uma sequência de quatro triunfos, o que faz dele um nome visto por muitos como um verdadeiro azarão perigoso na divisão dos meio-médios.
Gorimbo, por sua vez, oferece um teste igualmente relevante. Trata-se de um adversário experiente, com mais vitórias do que derrotas dentro do octógono. No histórico, ele já superou nomes como Niko Price e Ramiz Brahimaj, o que o coloca em uma posição de “prova” para Micallef. Além disso, Gorimbo chega com uma espécie de urgência própria, pois vem de uma sequência negativa de dois combates. Ou seja: ele também tem algo a provar, e o encontro tende a ser um desses que ajudam a entender com mais clareza como o “Captain” deve ser enxergado daqui para frente dentro da categoria.
Se Micallef repetir um desempenho semelhante ao que entregou contra Elliott — com capacidade de controlar, machucar e, principalmente, converter em finalização — existe a chance de ele entrar no mesmo caminho que vem sendo desenhado para Pericic e Rowston. Em outras palavras: além de consolidar a subida imediata, ele pode ganhar um acesso acelerado à disputa por posições mais altas, transformando a sua fase em uma corrida real por oportunidades no topo da divisão.

