UFC Vegas 116: Sterling controla e salva card fraco com vitória no octógono

O UFC Vegas 116 ficou marcado como um dos piores cards do ano até aqui, ao menos no quesito entretenimento. Apesar do clima pouco animador do evento como um todo, houve um ponto fora da curva: um main event comandado por Aljamain Sterling, que soube administrar o jogo com inteligência para interromper a sequência de Youssef Zalal na divisão peso-leve dos penas (categoria). Ainda assim, depois de uma série de lutas sem grandes momentos, a noite terminou com apenas dois resultados por finalização em um total de 13 combates, deixando a sensação de que o card demorou para engrenar — e quando engrenou, foi tarde.

Na visão geral, o co-main event entre Norma Dumont e Joselyne Edwards parecia problemático mesmo antes da bola subir. Dentro do octógono, a luta também não conseguiu passar do nível de “ruído de fundo”, reforçando críticas ao momento da categoria de peso-galo feminino. Além disso, a sequência de lutas envolvendo Rodolfo Vieira e Marcos Buchecha, ambos com forte identidade no jiu-jitsu, foi recebida com frustração por parte do público: eram dois nomes grandes, com cartel respeitado, mas que chegaram ao confronto em um contexto no qual a capacidade de impor ritmo, trocar em pé ou controlar a luta com variações claras de wrestling/striking parecia limitada. O bloco preliminar, por sua vez, foi o capítulo mais difícil de assistir do evento.

Antecedentes

Enquanto o restante do card não empolgou, dois veteranos do peso-galo chamaram atenção por entregarem combate competitivo do começo ao fim. Davey Grant, com 40 anos, e Raoni Barcelos, que completa 39 na sexta-feira seguinte ao evento, foram os grandes responsáveis por elevar o nível da noite com atuações que lembram por que a divisão ainda é uma das mais combativas do UFC.

A luta

O recorte positivo do evento começou com Grant, que enfrentou Adrian Luna Martinetti em um duelo que, desde o primeiro sinal, mostrou vontade e agressividade. Do outro lado, Barcelos também entrou em cena para retomar espaço no ranking após um período sem a mesma presença de antes, colocando Montel Jackson à prova.

  1. Davey Grant x Adrian Luna Martinetti: O confronto ganhou cara de luta de “resposta imediata”. Martinetti pressionou desde o primeiro momento, caminhando para frente sem dar passos para trás, como se quisesse decidir cedo. Grant, por sua vez, aceitou a briga no centro do octógono e respondeu com volume e variação, sem perder o controle do que estava sendo construído.

  2. Construção de vantagem de Grant: O plano de Grant passou principalmente pela perna de apoio. Com ataques insistentes à região da canela, ele foi desmontando o ritmo do adversário e levando Martinetti a trocar seu posicionamento para a postura secundária. A partir daí, surgiram golpes mais “altos” e com intenção mais clara de impacto, incluindo ataques por cima e combinações que quebraram o fluxo do estreante.

  3. Troca de ritmo e controle do volume: Conforme o combate avançava, Grant conseguiu encaixar golpes com regularidade e alternar bases, criando janelas para cruzados, golpes rápidos e momentos de maior peso. Mesmo com Martinetti tentando manter a pressão, o veterano seguiu ditando o ritmo do centro do octógono e conseguiu superar em volume um boxeador mais jovem e talentoso — e, para piorar, Martinetti vinha de uma sequência invicta desde setembro de 2017.

  4. Vitória e bônus: A atuação de Grant terminou com uma decisão favorável a ele, considerada a vitória mais “limpa” entre os dois combates do peso-galo que sustentaram o card. O desempenho rendeu ainda o bônus de “Luta da Noite” no valor de US$ 100 mil, algo que fez sentido pelo nível de entrega e pelo quanto o veterano conseguiu transformar pressão em vantagem concreta.

  5. Raoni Barcelos x Montel Jackson: Logo na sequência que veio imediatamente antes do combate de Grant, Barcelos voltou a se aproximar do topo do ranqueamento ao superar Montel Jackson. O duelo teve um começo em que Jackson, mais alto e mais longo, conseguiu acertar o ritmo inicial com intensidade e quase nocauteou o brasileiro logo nas primeiras trocas.

  6. Reação e busca por controle de luta: Depois do susto inicial, Barcelos respondeu com postura e comprometimento que não combinavam com a idade. Ele passou a trabalhar a luta agarrada com eficiência, encaixando tentativas constantes de derrubada, além de sequências de quedas e projeções para puxar Jackson para o chão.

  7. Trabalho na base e ataque ao pescoço: Sempre que conseguia prender Jackson, Barcelos avançava posições e direcionava a ofensiva para a região do pescoço. No processo, ele também absorveu pancadas retas de impacto, mas manteve a estratégia de encurralar o adversário e transformar o domínio em controle efetivo.

  8. Decisão dividida para Barcelos: O desfecho veio com vitória por decisão dividida para Barcelos, em uma atuação que agradou justamente por mostrar “moagem” e persistência — o tipo de combate em que o atleta vai construindo o resultado mesmo quando toma sustos no início.

O pós-luta

O card como um todo pode ter sido decepcionante, mas Grant e Barcelos deixaram uma mensagem clara: mesmo em uma divisão disputada e jovem, veteranos continuam capazes de entregar espetáculo quando colocam plano tático, volume e coragem em prática. Se o torcedor procura algo para rever no fim de semana seguinte, as vitórias dos dois devem ficar no topo da lista.

Além disso, a noite teve contraste com os combates anteriores e com o main event, que terminou com Sterling impondo experiência em uma luta de cinco rounds para interromper o avanço de Zalal. Ainda assim, o evento só ganhou um brilho real quando os veteranos do peso-galo assumiram o protagonismo do entretenimento.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.