Oleksandr Usyk manteve seu cartel invicto, mas a vitória veio com uma dose considerável de polêmica após a interrupção do árbitro no momento em que Rico Verhoeven parecia ter chance real de protagonizar um dos maiores feitos da história do boxe. Ao longo de dez assaltos, Verhoeven não apenas demonstrou que estava no mesmo patamar de Usyk no ringue, como também indicava estar na frente na maior parte do tempo, ainda que as anotações do boxe nem sempre sejam um termômetro perfeito para o que acontece dentro da luta. Com a proximidade do fim, Verhoeven intensificou a pressão e parecia pronto para virar o jogo nas duas últimas parciais.
A postura agressiva, porém, cobrou seu preço no 11º round. Ao avançar para cima de Usyk, Verhoeven foi surpreendido por um uppercut de impacto que o levou ao chão. Mesmo caído, ele conseguiu se levantar quando a luta foi retomada, com o relógio correndo dentro do assalto. Usyk então buscou “resolver” a luta, passou a despejar golpes e, quando Verhoeven ainda estava de pé, o árbitro se colocou entre os dois para interromper a sequência e encerrar o combate. As equipes de Verhoeven protestaram imediatamente, mas a luta já estava decidida: o tempo oficial para o TKO foi registrado aos 2:59 do 11º round.
Depois do triunfo, Usyk fez questão de reconhecer o adversário e o esforço do encontro. “Rico, você é um lutador incrível. Minha equipe, eu amo vocês. Vocês são os melhores. Essa luta foi difícil. Foi uma boa luta. Eu estava só boxeando. Meu uppercut de direita, bomba… obrigado, Deus.” A vitória, ainda que tenha sido construída com intensidade no momento decisivo, ganhou ainda mais repercussão porque a trajetória de Verhoeven no duelo fazia parecer que ele estava a praticamente um assalto de se tornar campeão dos pesos-pesados.
Verhoeven, por sua vez, demonstrou frustração com a forma como o combate terminou. “Claro que eu achei que foi cedo. No fim das contas, não é comigo. Mas ainda assim, eu pensei que foi um pouco cedo. Eu acredito que o árbitro sabe que a gente está quase no final do round, ou então deixa eu sair com dignidade, deixa a gente ir até o gongo. Foi isso que eu achei. Mas como eu disse, não é comigo.” Ele seguiu ressaltando que, pelo que sentiu e pelo equilíbrio percebido, havia margem para o final do assalto. “Não pare. Estava muito perto, ou deixa eu sair com minha postura, ou deixa a gente ir para o 12º. Eu estava perto, a gente parecia bem igual nas cartas. Pelo menos era isso que eu sentia. Mas, como eu disse, eu estou muito orgulhoso, muito grato. Hoje, a gente escreveu história.”
Logo após o fim do combate, Turki Alalshikh pediu uma revanche, com a intenção de dar ainda mais força ao duelo e, principalmente, promover o evento no país natal de Verhoeven, a Holanda. O próprio Rico se mostrou aberto à ideia, embora tenha deixado claro que a decisão final não depende dele. “Não é comigo [sobre uma revanche]. Eu já estava muito agradecido pela oportunidade também, e pelo fato de o Usyk ter aceitado essa luta. Não é comigo, é com a organização, então vamos ver o que acontece.”
No desenvolvimento da luta, Verhoeven começou com bastante movimentação e abriu o combate acertando uma mão direita reta. Usyk tentava se manter na distância com o jab de entrada, “tocando” o adversário, enquanto Verhoeven seguia ativo e ainda anotou outra direita dura na região do corpo. Na segunda parcial, Usyk passou a trabalhar com mais frequência, mas Verhoeven manteve a postura de avançar e tentar usar seu tamanho como arma contra o campeão dos pesos-pesados. A agressividade do holandês teve um custo quando Usyk respondeu com dois uppercuts bem sólidos, porém Verhoeven não recuou e continuou impondo ritmo, possivelmente na tentativa de cansar o russo.
Mesmo com variações e trocas constantes, Verhoeven conseguiu soltar combinações de vários golpes, enquanto Usyk, em muitos momentos, encontrava espaço para acertar de forma mais pontual, ainda que com impacto. À medida que a luta avançou para o quarto round, Usyk começou a aumentar o volume e a atacar com violência, pressionando Verhoeven e deixando claro que buscava nocautear. Ainda assim, quando parecia que Usyk tomaria o controle, Verhoeven respondeu com uma direita perigosa que acertou o adversário com força suficiente para interromper o ímpeto.
Verhoeven seguiu atacando, alternando golpes no corpo e na cabeça, forçando Usyk a ficar recuado. Usyk então devolveu com o jab de frente e tentou encaixar sua esquerda forte. O fato de Verhoeven não apenas sobreviver como também vencer alguns rounds no confronto surpreendeu muita gente, e o holandês continuou com confiança enquanto Usyk tentava achar uma brecha capaz de causar dano real ao ex-campeão da GLORY no kickboxing.
Em um determinado momento, Usyk mudou a guarda e, imediatamente, levou uma direita dura de Verhoeven que o pegou limpo na linha do queixo. A partir daí, Verhoeven foi mantendo o trabalho antes de desferir uma sequência com direita ao corpo e, em seguida, uma direita na cabeça que fez a cabeça do adversário voltar com impacto. No nono round, Verhoeven conseguiu conectar golpes castigadores no corpo enquanto ia empurrando Usyk para trás, alternando combinações e clinch para aproveitar o tamanho e se apoiar no controle da distância. Nos intercâmbios, Verhoeven não demonstrou medo, continuou atirando com frequência e manteve técnica e potência, enquanto Usyk só foi “acordando” com o relógio se aproximando do fim.
No 10º round, Usyk intensificou o ataque e foi atrás de Verhoeven, mas também acabou sendo atingido por outra direita forte pouco antes do soar da campainha. Quando Usyk ficou mais ativo, parecia encontrar melhor encaixe para seus golpes, porém Verhoeven respondia na mesma moeda e seguia conseguindo colocar seus melhores ataques no alvo. Em um momento de trocas junto às cordas, Usyk cravou o golpe mais eficiente do combate: um uppercut que fez Verhoeven cair de costas no chão. Ele se levantou, mas Usyk continuou atacando com uma sequência de golpes, embora grande parte tenha sido bloqueada por Verhoeven.
Mesmo com a resistência demonstrada, a atuação no fim ficou marcada pelo corte do árbitro, que interrompeu a luta e entregou a Usyk o resultado do 11º assalto por TKO. A interrupção controversa tende a acompanhar essa vitória por muito tempo, mas o desfecho também pode abrir caminho para uma revanche, já que Usyk teria sinalizado a possibilidade de repetir o confronto. Considerando o quanto Verhoeven esteve perto de virar o jogo e causar o choque no mundo, a expectativa por um novo capítulo segue em aberto.

