Jim Miller quebra rotina e volta ao octógono no UFC 328 contra Jared Gordon

Jim Miller não costuma ficar tanto tempo sem lutar — são 13 meses entre um compromisso e outro —, mas o intervalo entre sua última aparição no UFC 314 e o retorno contra Jared Gordon no UFC 328 foge do padrão. Aos 20 anos de carreira no MMA, o veterano de Sparta, no estado de Nova Jersey, passou por uma sequência de acontecimentos que bagunçou totalmente o calendário, primeiro com uma lesão severa e, depois, com uma batalha familiar ainda mais dura.

A lesão que quase tirou o ritmo de Miller

Miller admite que lidou com a pior contusão da carreira antes de enfrentar Chase Hooper, em abril do ano passado. A princípio, a situação não parecia algo que impediria sua participação, mas o quadro se mostrou mais traiçoeiro do que ele imaginava. Em sua explicação, o norte-americano descreveu um problema na região do quadril/pelve, envolvendo ruptura muscular e lesão na estrutura de cartilagem que fica na parte frontal do osso.

“Eu acabei arrancando um músculo da pelve e também torci/sensibilizei a articulação da pelve, aquela pecinha de cartilagem na frente, onde o osso encontra a parte óssea. Em geral, ela não deveria se mexer — pelo menos não em homens. Eu senti isso em fevereiro: dava para perceber que era uma lesão muscular e pensei ‘ok, é músculo; vamos resolver com tempo’. Só que, durante o camp, eu me sentia bem, mas existiam coisas que eu não conseguia fazer do jeito que deveria”, detalhou Miller.

O lutador ainda apontou que o treino com chutes acabou funcionando como um gatilho para a relesão. Segundo ele, o corpo até permitia lutar, mas não no nível ideal para garantir vantagens na noite do combate.

“Eu sabia que dava para lutar com isso, e que eu poderia vencer o Hooper com esse problema. Mas naquele dia tiveram outros fatores que não estavam a meu favor e, no fim, não foi uma noite que eu consegui controlar como queria”, afirmou.

Wyatt: o “terremoto” fora do octógono

Após a derrota para Hooper, Miller reconheceu que precisaria realmente tratar o problema com mais seriedade. Enquanto ele colocava a rotina de volta nos eixos para se recuperar, outra crise atingiu a família com força total: Wyatt, seu filho de 14 anos, recebeu diagnóstico de câncer.

“Ele tinha rabdomiossarcoma — é um tipo raro e agressivo de câncer infantil. É uma doença que atinge os tecidos moles. No caso dele, ficava escondido na região da órbita ocular e na área dos seios nasais”, explicou o pai, que compartilhou recentemente um vídeo emocionante nas redes sociais quando Wyatt recebeu o parecer de “ausência de evidência de doença”.

De acordo com Miller, a localização do tumor trouxe particularidades no tratamento. Ele ressaltou que, em muitos casos, esse tipo de massa cresce atrás do olho, podendo “enrolar” no nervo óptico e gerar complicações maiores e mais persistentes. No entanto, a situação do filho seguiu um caminho que, segundo ele, acabou trazendo uma chance melhor de controle.

“Com a posição do tumor, quando foram fazer a biópsia, ele acabou ‘saltando’ sozinho, como se fosse uma espinha, e praticamente tudo foi removido — exceto um pequeno remanescente de células. E ele já tinha uma boa vantagem por causa de onde estava”, disse Miller, reforçando que a equipe teve condições de avançar rapidamente.

“Nosso maior objetivo era manter a normalidade”

Com a doença em pauta, o foco do atleta migrou totalmente. Treinar e estar pronto para lutar deixou de ser prioridade absoluta, enquanto Wyatt e o restante da família passaram a ocupar o centro de tudo. Miller relembra que, retrospectivamente, a batalha do filho também ajudou a dar o tempo necessário para a recuperação da lesão — algo que, em outro cenário, talvez não tivesse acontecido.

“Nossa meta principal, durante todo esse período — além de ver nosso filho de 14 anos vencer o câncer — era tentar manter alguma regularidade na vida. Existiram momentos em que a gente não sabia o que ia acontecer, e esses foram os mais difíceis. Quando ele estava sofrendo com a náusea do tratamento, aquilo era duro. Ver ele machucado, lutando, tentando segurar e aguentar… foi difícil. Mas, como eu disse, ele é uma criança forte, resiliente e…”

Miller então respirou fundo, visivelmente emocionado, e continuou.

“Eu vou acabar ficando comovido agora. A graça e a disposição dele para encarar isso, para passar por todo o tratamento, e a forma como ele não quis mudar quem ele era… Eu conquistei coisas que nenhuma outra pessoa no mundo tem, e a honra que eu sinto pelo meu filho por tudo o que ele enfrentou faz qualquer coisa que eu tenha feito dentro do octógono ficar pequena perto disso”, declarou.

Retorno ao octógono e a busca por marcas

Conforme Wyatt avançava no tratamento, Miller comunicou à organização que estava pronto para voltar. Com o evento marcado para retornar ao estado dele, fez sentido para a promoção manter o veterano em pausa até este fim de semana. Ao finalmente voltar ao octógono, ele fica perto de dois marcos importantes: chegar a 50 lutas na companhia e a 30 vitórias no cartel do UFC. Atualmente, Miller está com 46 lutas e 27 triunfos na organização.

“Isso ainda está lá, ainda é possível. Eu não quero mais ter intervalos longos de um ano. Treze meses é absurdo. Se o último ano não tivesse acontecido do jeito que aconteceu, eu poderia estar indo para o número 49 agora… Então vamos ver. Não existem garantias nesse jogo, mas eu definitivamente quero chegar a isso”, projetou.

Mesmo perseguindo as metas, Miller é do tipo que provavelmente continuaria lutando mesmo assim. Ele diz que o perfil dele é exatamente esse: competir, encarar adversários e buscar desempenho.

História de superação: Lyme e o “trancar” do tempo

O veterano lembra que já pensou em encerrar a carreira antes. Ele cita que estava pronto para desistir entrando no UFC 200, quando o corpo parecia cobrar o preço da idade e ele acreditava que o fim estava próximo. O que ele não sabia é que sofria com doença de Lyme havia anos.

Depois de entender o que precisava para seguir lutando, Miller se comprometeu a continuar e acumulou mais 23 lutas, incluindo participação no UFC 300. Com isso, ele atingiu uma sequência rara: esteve no UFC 100, no UFC 200 e no UFC 300.

Por que Miller ama esse tipo de desafio

Quando fala sobre o duelo contra Jared Gordon, Miller deixa claro que a motivação não está apenas nas marcas. Para ele, a emoção começa na preparação e na incerteza do octógono — especialmente quando o adversário entra com energia e propósito de vencer. O lutador destaca que, quando o oponente é alguém mais jovem, existe uma sensação diferente de nervosismo. No caso de Gordon, há outro ingrediente: ele diz que sabe o que esperar e isso aumenta o “apetite” pela luta.

“Essas são as lutas que eu amo. Eu gosto de todas. Existe uma sensação especial quando você encara o desconhecido, quando chega um cara novo na cena. Dá até um tipo diferente de nervos. Quando é alguém como o Jared, tem mais empolgação também, porque eu sei o que esperar: eu sei que ele é competitivo, que vai entrar para tentar me acertar e tentar me destruir… e eu gosto disso”, afirmou.

“Eu gosto de lutar contra gente que eu também gosto de ver lutando. Então eu estou pronto. Não vejo a hora de chegar a noite da luta”, completou.

O jeito de lutar: vencer por finalização

Quando voltar, Miller terá como objetivo atingir sua 11ª vitória consecutiva por interrupção. A sequência de triunfos antes do limite, segundo ele, se estende desde uma vitória no UFC 205 sobre Thiago Alves.

Ele reforça que sua satisfação não vem apenas com a mão erguida: vem com a forma como a luta termina. Miller diz que tem perfil agressivo e quer performar de um jeito que, se alguém estivesse assistindo de fora, enxergaria um confronto empolgante — mesmo quando o ritmo do jogo parece não estar do lado dele.

“É assim que eu sou. Eu sou um lutador agressivo e quero sair satisfeito com a minha performance. O jeito que eu fico feliz em ver minha mão levantada é quando eu termino alguém. Eu sempre fui muito movido por performance. A única forma de eu ficar realmente em paz é conseguir essa finalização. Eu quero lutar do jeito que eu gostaria de assistir. Eu quero que minhas lutas sejam lutas em que, se eu fosse o espectador, eu pensaria: ‘Que briga boa. Olha o cara indo’. Mesmo que ele esteja perdendo, ele continua lutando, continua indo atrás, continua tentando pegar a vitória”, explicou.

“Sempre foi assim. E sempre vai ser.”

A família como combustível e a celebração do “normal”

É também por isso que não surpreende o quanto Wyatt foi determinado em sua própria batalha e como toda a família — com destaque para a filha Cassidy — se mobilizou durante o processo. E é por isso que, na noite de sábado, independentemente do desfecho para o patriarca, os “Fighting Millers” querem comemorar a volta completa à rotina.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.