Kyler Phillips x Charles Jourdain no UFC Winnipeg: preview e luta na galo

O UFC volta a movimentar o Canadá neste sábado, 18 de abril de 2026, com um duelo de peso galo que promete colocar frente a frente dois lutadores de estilos bem distintos no Canada Life Centre, em Winnipeg, no estado de Manitoba. No card do UFC Winnipeg, Kyler Phillips e Charles Jourdain se encaram em uma luta que reúne um striker bastante atlético e “vivo” no deslocamento, de um lado, e um adversário que encontrou um novo fôlego na divisão depois da mudança de categoria, do outro.

Phillips chega para o combate com o apelido que sugere criatividade e agilidade, e de fato ele tem momentos em que entra no ritmo certo e consegue se movimentar como poucos, combinando kickboxing de base karatê com um jogo de wrestling que aparece como ferramenta para desequilibrar o oponente. O problema é que, apesar da capacidade técnica e do faro para criar ângulos, ele não costuma sustentar o próprio compasso ao longo da luta. Com isso, o lutador de 30 anos acabou pagando caro: ele vem de uma sequência de duas derrotas e, como consequência, deixou o Top 15, ficando fora do grupo de referência na categoria.

Jourdain, por sua vez, vive um momento diferente. A descida para o peso galo, que demorou mais do que o esperado, acabou servindo para destravar o desempenho do canadense. Durante anos, ele enfrentou adversários maiores e teve dificuldades para colocar seu plano de jogo completo em ação, mas agora parece muito mais perigoso contra atletas que não conseguem impor força e domínio físico da mesma maneira. Uma vitória a mais pode recolocar Jourdain no caminho do ranqueamento pela primeira vez em seus oito anos de passagem pelo UFC, um marco que aumenta o peso do compromisso em Winnipeg.

Nas casas de apostas, Jourdain aparece como favorito para vencer o confronto. O triunfo do lutador tem cotação de -164, enquanto Phillips está avaliado em +128. Para o desfecho por finalização, Jourdain surge com +550, ao passo que Phillips aparece com +1000. Se a luta terminar por interrupção (TKO/KO/DQ), Jourdain está em +500 e Phillips em +650. Já a possibilidade de vitória por decisão leva a odds de +185 para Jourdain e +280 para Phillips.

Para entender como Phillips pode sair com a vitória, o ponto central passa pelo controle do ritmo e pela capacidade de manter o oponente sob pressão sem ficar preso a trocas que favoreçam a leitura do adversário. Kyler Phillips é um striker elétrico, que se desloca bastante do lado de fora do octógono, alternando direção e usando rajadas rápidas para surpreender o adversário com ataques grandes. Um dos elementos que mais chamam atenção é a consistência do chute alto, que tende a entrar com regularidade quando ele encontra a distância ideal. Além disso, o atleta tem cinturão de jiu-jitsu na faixa marrom e um histórico sólido de wrestling, o que adiciona camadas ao seu repertório e dá variação para ameaçar quedas e dominar clinches. O desafio, porém, é sustentar o que ele consegue fazer no começo: se Phillips não aprender a manter o mesmo nível de intensidade ao longo do combate, o cenário pode virar contra ele. Neste confronto, a dinâmica também parece favorecer o plano de Phillips em um detalhe importante: nos triunfos recentes de Jourdain, ele conseguiu encaixar golpes pesados com timing quando enfrentava adversários mais curtos, que tentavam fechar distância e trabalhar em sequência. Esse tipo de cenário tende a ser menos comum contra Phillips, que não é exatamente o lutador que “encosta” e pressiona o tempo todo. Com menos necessidade de avançar, Phillips tende a ter mais facilidade para evitar respostas no contragolpe sem ter que suportar o mesmo tipo de pressão que outros oponentes ofereceram.

Na leitura estratégica, a expectativa é que Phillips tente aproveitar justamente o que costuma ser sua arma: velocidade de pés e explosão para ditar o trajeto das trocas. A ideia seria trabalhar o “stick-and-move”, fazendo o adversário mais alto e mais longo dar passos para frente antes de receber os golpes. Um caminho eficiente para lidar com lutadores desse porte é colocá-los em posição de avançar, justamente para que eles entrem no raio do contragolpe. Em termos de estratégia, a comparação com estilos que armam armadilhas de distância serve para explicar o raciocínio: ao vencer a batalha de chutes e permanecer evasivo, Phillips pode fazer Jourdain ser atraído para o momento em que o timing do contra-ataque fica mais favorável.

Do outro lado, o plano para Jourdain segue uma lógica de adaptação. Quando atuava no peso pena, o canadense era mais “brigador”, durável e acostumado a produzir volume alto. Agora, no peso galo, ele parece ter virado um “atirador”, com capacidade de acertar com precisão quando o adversário entra na zona de risco. Em qualquer divisão, há um fio condutor no momento recente: as últimas vitórias dele terminaram por finalização via chave de guilhotina, que virou marca registrada. Só que existe uma diferença relevante em relação a lutas anteriores: como ele não pode ficar esperando com conforto na retaguarda contra um oponente mais rápido, Jourdain tende a precisar ser mais ativo na pressão e no controle da distância em movimento, criando oportunidades para derrubar o planejamento do striker. Como Phillips, por outro lado, tende a ficar menos perigoso nas fases intermediária e final do combate quando comparado ao começo, o caminho mais natural para Jourdain é adotar um estilo mais “raspado”, mantendo o fluxo e evitando que o adversário consiga recuperar fôlego.

Para transformar essa leitura em vitória, a tendência é ver Jourdain pressionando Phillips de forma tática, colocando os pés para trabalhar com combinações de golpes para que, no encaixe certo, ele possa jogar os chutes no membro de trás e também na região do meio do corpo. Mesmo que Phillips consiga acertar mais cedo e impor uma vantagem de troca no início, o jogo pode mudar caso Jourdain impeça o rival de descansar. A medida que as pernas do oponente desaceleram e a movimentação diminui, Jourdain tende a enxergar as investidas com mais clareza, ajustando o tempo para capturar contragolpes e transformar o ritmo do combate em oportunidade de finalização. Se Phillips diminuir a cadência que o ajudou a criar espaços no começo, a tendência é que o “sniper” de guilhotina encontre o timing para colocar o adversário em perigo.

Na projeção final, o confronto força uma análise sobre quanto do sucesso de Jourdain no peso galo depende da mudança de categoria versus a combinação de estilos. De fato, confrontos recentes dele envolveram adversários que acabaram caindo no cenário ideal para o canadense, com Victor Henry e Davey Grant oferecendo dinâmicas que favoreciam o tipo de ameaça que Jourdain consegue construir. Ainda assim, Phillips também é um lutador com falhas claras: não sustenta o próprio ritmo, e isso já custou caro em momentos importantes da carreira. Jourdain parece estar chegando a uma fase em que encaixa melhor seu jogo, enquanto Phillips enfrenta o mesmo problema que esteve na origem da primeira derrota dele no UFC, em 2021. A preocupação específica, na leitura do combate, é que Phillips use o wrestling para conter a pressão — só que, quando o condicionamento começa a cair, essa tentativa pode abrir espaço para que ele mergulhe em uma guilhotina, exatamente o tipo de armadilha em que Jourdain costuma brilhar. A previsão, portanto, é de Charles Jourdain vencendo por finalização.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.