Existem alguns nomes no elenco do UFC que parecem ter um encaixe natural para atravessar longos períodos longe do octógono, mas o caminho de Marcus McGhee até aqui exige ainda mais adaptação. O lutador da categoria dos galos vai voltar a lutar neste fim de semana após ficar 11 meses sem competir, intervalo que veio depois de seu duelo contra Petr Yan no ano passado, em Abu Dhabi. Com 36 anos e o perfil de quem não se deixa dominar pelo lado negativo, McGhee chega para o compromisso diante de John Yannis mantendo a cabeça no lugar e direcionando toda a energia para estar pronto quando a oportunidade enfim surgiu.
Em conversa, McGhee explicou como encara o período parado e a própria decisão de aceitar o combate. “As coisas caíram assim. Você escolhe o que consegue e se adapta ao que precisa se adaptar, mas é isso. Quase perdemos essa luta, então obrigado ao John Yannis por ter aparecido e decidido encarar. Estou muito agradecido por estar aqui agora”, disse o atleta.
O lutador do MMA Lab também reconheceu que a espera é frustrante, ainda mais quando se prolonga por quase um ano. “É irritante, obviamente. Acho que, em qualquer área da carreira, quando você fica afastado por um tempo desse tipo, passa por vários momentos emocionais. Felizmente, eu tenho uma família muito sólida e um estilo de vida muito bem fundamentado, e isso me mantém no chão. Eu usei tudo isso como o que é e foquei em melhorar na academia, construir minha família e também reforçar minha fortaleza mental”, afirmou.
Para McGhee, o ponto central foi aproveitar o tempo da melhor forma possível, mesmo sem ser a situação ideal. “Usar o tempo com inteligência foi bom para mim. Claro que eu não queria ficar tanto tempo parado, e eu gostaria de ter lutado mais vezes, mas eu sinto que vira um problema se você não aproveitar o período de forma eficiente, como eu consegui fazer”, completou.
Para muitos atletas, a rotina constante de preparação—camp de luta, um descanso curto e recomeçar—costuma deixar pouco espaço para lapidar detalhes técnicos com profundidade e para trabalhar especificamente aquilo que precisa de ajuste. Os treinamentos acabam sendo montados para as exigências do combate daquele dia, e o foco vai ficando cada vez mais estreito conforme a data se aproxima.
Mesmo assim, no caso de McGhee, os 11 meses longe da luta não significaram estagnação completa. O período foi recheado de oportunidades para continuar evoluindo porque ele esteve presente nos treinos e nos camps de vários companheiros de equipe, mantendo o ritmo e o ambiente competitivo dentro do mesmo ecossistema.
“Mesmo competindo com frequência, eu ainda sinto que sempre existe aquela chance, mas como não era minha luta, e eu não precisava fazer isso no papel principal, ficou um pouco diferente. Uma das partes que eu mais gosto da nossa academia é que a gente está uns pelos outros. Então, mesmo sem eu lutar, meus caras estavam lutando”, comentou o lutador.
“Eu fiquei (em Winnipeg) com o Kyler (Phillips); acompanhei o camp inteiro dele. O Mario (Bautista) estava lutando, e eu vivi o camp dele junto. O Abdul Kamara tem competido regularmente pelo Fury FC, e eu também treino com ele. Tem tantos de nós crescendo, tantos lutando o tempo todo, que isso força você a não se atrasar na academia. Continua sendo evolução, continua sendo a mesma mentalidade; só não foi eu subindo no octógono”, acrescentou.
O retorno de McGhee também ganha um componente importante: a maneira como ele enxerga o último compromisso, justamente aquele que o deixou 11 meses longe do centro do palco. Seu duelo mais recente contra Petr Yan, agora com dois títulos na divisão dos galos, foi o tipo de combate que pode virar referência emocional para alguns lutadores—mas McGhee prefere usar como aprendizado sem deixar que aquilo vire uma âncora.
Ao falar sobre o tema, ele recorreu a uma analogia de cultura pop e conectou a ideia de como certas pessoas não superam um momento específico. “Existe uma linha num filme em que o personagem está mexendo com discos e fala sobre gente que nunca superou a guerra ou a noite em que abriu para o Nirvana, ligando isso a não ter superado um término marcante. Uma coisa parecida acontece no combate. Alguns atletas ficam para sempre presos à noite em que encararam alguém acima do nível, ou quando conseguiram a maior vitória da carreira, e tudo vai ficando amarrado naquele instante, como se voltassem para viver aquele mesmo período”, disse.
McGhee enxerga o próprio combate com Yan como um possível gatilho de confiança para “O Maniaco”, caso ele permitisse que aquilo tomasse conta da cabeça. Ele venceu o primeiro round e ainda assim encarou um duelo competitivo de 15 minutos com o homem que hoje ocupa o topo da divisão dos galos—pela segunda vez. Um desempenho assim naturalmente pode inflar a postura e dar confiança, mas o atleta prefere tratar como algo que oferece lições positivas sem mexer no que importa agora, que é o que vai acontecer neste sábado e no caminho seguinte.
“Tem, sim, confiança que vem daí, mas eu não deixo isso me capturar demais, porque numa luta qualquer coisa pode acontecer numa noite. Eu sinto que as pessoas ficam remoendo demais esses momentos, e isso pode fazer mal”, explicou.
“Sim, eu fui lá e tem coisas boas no que eu apresentei contra ele, mas isso não muda nada para as lutas futuras. Todo combate vai ser difícil. Independentemente de como eu apareci naquela noite, eu ainda preciso garantir que eu apareça ainda melhor e com ainda mais força em cada uma dessas lutas. Eu não posso permitir que nenhuma apresentação trave meu crescimento”, continuou.
“Mesmo eu tirando confiança disso, é uma confiança pequena, e aí a humildade volta e eu penso: não importa como eu fiz, ou como eu não fiz; é uma nova luta, um novo momento, um novo tempo”, acrescentou, rindo. “O Yannis não liga. Isso não muda o plano de jogo, as habilidades, nem a ética de trabalho dele. Eu ainda tenho que ser a melhor versão de mim mesmo para mostrar por que eu estava naquela posição e por que eu apresentei do jeito que eu apresentei.”
Depois de 11 meses esperando a chance de voltar, McGhee enfim terá o compromisso neste sábado. A intenção é entregar um desempenho que reafirme por que ele mereceu estar no octógono contra um adversário do tamanho de Yan—mas, para ele, o foco é pessoal: fazer o trabalho do próprio lado, sem depender de qualquer validação externa.
“Eu preciso lembrar pra mim mesmo que eu pertenço aqui. Não é necessariamente para outras pessoas, é para eu relembrar todo o trabalho duro, toda a dedicação, o caráter construído. Aí eu vou lá e desempenho bem para honrar o que foi colocado. Eu estou muito animado e só pensando em sair lá, colocar os pés no chão do octógono, olhar nos olhos do adversário e mostrar minhas habilidades”, afirmou.
Mesmo que tudo saia perfeito no fim de semana, McGhee sabe que o esporte não dá trégua e que, na divisão dos galos, a dinâmica muda rápido. Por isso, a mentalidade é imediatista: cumprir o melhor possível neste sábado e, na sequência, voltar direto para o ciclo de treinamentos para estar pronto para a próxima oportunidade.
“Eu vou entrar e performar do jeito mais completo que eu conseguir. Vou mostrar tudo o que eu trabalhei e a totalidade do meu jogo. Seja indo para finalização com golpes, finalizando por submissão, ganhando com superioridade durante 15 minutos, ou lutando um combate de guerra e garantindo a vitória, no fim é só fazer o melhor do que eu sei fazer, no meu nível mais alto”, disse.
“As pessoas vão ver. Mas na nossa divisão a base de fãs oscila muito porque as coisas estão acontecendo o tempo todo. Então, independentemente disso, a gente faz o que foi planejado no sábado. Na próxima semana, a história já passou. Eu não coloco muitas expectativas nessa ‘bolsa’ de atenção. Eu só vou lá, performo do melhor jeito que eu puder, volto para a academia e me preparo para o que vier, porque isso aqui é só parte do processo”, concluiu.
