Peso-pesado em foco: o que pode mudar no topo do UFC Freedom 250

Depois de analisar a divisão dos leves e projetar possíveis rumos para os atletas ranqueados que buscam adversários, a conversa agora muda de categoria. Desta vez, o foco recai no peso-pesado, com um recorte direto para dois eventos que podem mexer bastante no topo do ranking.

O objetivo é observar as peças que entram em cena em UFC Freedom 250, onde a disputa deve render um campeão interino, e também em UFC 329, que terá a estreia de um dos prospectos mais badalados da história do esporte no card principal. Entre eles, há presença marcante de atletas brasileiros e nomes que costumam ditar o ritmo da divisão.

Interino em Washington: Alex Pereira x Ciryl Gane e o impacto no topo

Alex Pereira vs Ciryl Gane — UFC Freedom 250 (14 de junho)

Para esta análise, o ponto central não é discutir se Alex Pereira vai, de fato, escrever história ao se tornar campeão em três divisões em poucas semanas. O foco aqui é o confronto entre ele e Ciryl Gane, marcado para valer um cinturão interino, e como o resultado pode reorganizar a hierarquia do peso-pesado.

Em tese, o vencedor do duelo deve encarar Tom Aspinall assim que o britânico estiver liberado para retornar. A ideia de ver Pereira vencer e, em seguida, unificar contra o campeão em uma luta que reforçaria ainda mais o currículo é atraente, mas uma revanche entre Gane e Aspinall também desperta grande interesse.

O cenário pode ficar ainda mais interessante se Gane sair com a vitória. No momento, não existe sinal claro sobre se Pereira pretende permanecer no peso-pesado por longo prazo ou se sua prioridade é apenas buscar a marca histórica.

Qualquer que seja o lado que vencer em Washington, o atleta que não estiver na posição do campeão interino ainda deve continuar como um concorrente de ponta. Isso torna a presença de Pereira especialmente relevante, já que ele não tem histórico prévio dentro do topo que já tenha sido consolidado por outras rivalidades do próprio setor.

Independentemente do desfecho, a expectativa é que ainda neste ano aconteça uma unificação grande e que um desafiante de elite volte a entrar com força na disputa pelo cinturão, mantendo a divisão viva na segunda metade do calendário.

Prova de fogo para o invicto: Josh Hokit x Derrick Lewis

Josh Hokit vs Derrick Lewis — UFC Freedom 250

Além da briga pelo interino, a luta entre Josh Hokit e Derrick Lewis chama atenção por um motivo simples: é mais uma oportunidade para observar o crescimento do novato invicto. Porém, o duelo também carrega aquela sensação de “pode bagunçar o tabuleiro”, porque os efeitos no ranking podem ir além do que parece à primeira vista.

Assim como Pereira, Hokit ainda não construiu um histórico direto com os nomes que orbitam o topo. Já Lewis tem trajetória e presença suficiente para influenciar o debate de ranqueamento. Se Lewis conseguir emplacar mais uma vitória no evento, ele não deve perder posição na lista — já está quatro degraus acima de “The Black Beast” —, mas ainda assim entraria com força na conversa, com novas possibilidades de confrontos.

O ponto é que, independentemente de quem vença, a tendência é abrir espaço para combinações mais frescas e interessantes na divisão, principalmente para quem ainda está tentando consolidar o lugar entre os principais.

Estreia de peso: Gable Steveson x Elisha Ellison no UFC 329

Gable Steveson vs Elisha Ellison — UFC 329 (11 de julho)

A conversa sobre o peso-pesado também passa por Steveson, apresentado como um talento de geração que tende a chegar ao cinturão mais cedo do que o comum. O peso da expectativa é enorme, mas existe um detalhe importante: prever o caminho dele com precisão ainda é difícil.

O atleta de 26 anos é campeão olímpico em 2020, vencedor do Dan Hodge Trophy por duas vezes, campeão nacional da divisão I da NCAA também em duas oportunidades e All-American por cinco vezes. Além do currículo no esporte universitário e no nível olímpico, ele ainda teve passagem pela WWE, assinou com o Buffalo Bills por um período e foi liberado antes de migrar para o MMA.

Em termos de “ferramentas” brutas, o teto parece alto. Ainda assim, existem duas perguntas que precisam ser respondidas antes de colocar uma faixa no pacote: (1) ele ainda enfrentou adversários sem o mesmo nível de exigência e (2) não dá para saber, com certeza, como ele reage a golpes reais de alguém que acerta de forma consistente no alto nível.

Elisha Ellison é um degrau acima dos lutadores que Steveson enfrentou até aqui, mas a luta de estreia do americano na promoção aconteceu em setembro passado e durou menos de dois minutos. Por isso, é provável que o duelo sirva mais para confirmar a força do prospect do que para revelar muito sobre a capacidade dele sob pressão prolongada.

Uma parte da análise sugere que seria interessante dar a Steveson um caminho parecido com o que Hokit recebe — ou seja, colocar frente a frente com um nome que force respostas mais completas. Outra leitura, porém, é que ele pode trilhar um estilo semelhante ao de Bo Nickal: ganhar experiência progressiva, lutar algumas vezes por ano e subir degrau a degrau no ranking.

Isso tende a ser mais fácil no meio-pesado do que no peso-pesado, mas ainda assim pode não ser uma escolha ruim, principalmente se houver qualquer dificuldade no início da jornada.

O que ficou do panorama do peso-pesado

  • Alex Pereira e Ciryl Gane se enfrentam pelo cinturão interino no UFC Freedom 250, em 14 de junho.
  • Josh Hokit e Derrick Lewis se enfrentam no UFC Freedom 250.
  • Gable Steveson estreia no UFC 329 contra Elisha Ellison, em 11 de julho.
  • A expectativa é que o vencedor do interino encare Tom Aspinall quando ele estiver liberado para voltar.
  • Há a ideia de que, dependendo do resultado, a divisão pode ganhar novos confrontos e um novo nome forte voltando à disputa.

THE REST OF THE NAMES TO KNOW

Em vez de listar todos os atletas um por um, como foi feito na divisão dos leves, a proposta é agrupar nomes para mostrar uma foto do peso-pesado no momento e também projetar como o cenário pode evoluir nos próximos anos.

Rising Stars of UFC Freedom 250

The Champion Emeritus: Tom Aspinall

Quando o assunto é Aspinall, a sensação é de incômodo pelo tempo afastado. Ele é visto como um lutador de alto nível e foi tratado como um possível campeão por longo reinado antes de sofrer um problema no olho em outubro passado.

Até agora não existe um cronograma claro para o retorno. E, quanto mais o tempo passa, menor a certeza de que ele realmente volte. A avaliação não é uma “notícia” em si — é um sentimento de quem acompanha o esporte há bastante tempo, e que incomoda justamente por ser difícil de ignorar.

The Clubhouse Leaders: Alexander Volkov, Sergei Pavlovich

Os dois russos consolidaram posições importantes no topo em maio. Volkov venceu por decisão Waldo Cortes Acosta, enquanto Pavlovich atropelou Tallison Teixeira em Macau.

No ranking, eles ocupam os lugares 2 e 3, respectivamente. E existe ainda um detalhe que pesa: Volkov já tem uma vitória sobre Pavlovich registrada.

Por ora, a dupla precisa esperar. Existem algumas rotas possíveis a depender do que acontecer em Washington e de como será o futuro de Aspinall, mas nada disso se define enquanto as peças não começam a cair no lugar.

Mainstays, Part I: Waldo Cortes Acosta, Serghei Spivac, Curtis Blaydes

Esses atletas, junto de Lewis, aparecem como talentos consolidados fora da conversa imediata do cinturão. Eles estão à frente do grupo mais “emergente” até que surjam provas mais definitivas.

Embora a tendência, muitas vezes, seja parear lutadores próximos no ranking para que os caminhos se aproximem, a divisão ficou “parada” rápido demais na última vez em que esse tipo de estratégia virou regra. A leitura defendida aqui é que seria melhor colocar esses nomes diante de novos rostos promissores e observar como o sistema reage.

No pior cenário, os veteranos vencem e fica mais clara a diferença de nível por enquanto. Mas, se alguns dos aspirantes derem o passo à frente, novos emparelhamentos passam a fazer sentido na sequência.

PHOTO GALLERY: UFC Freedom 250 Fighters Visit White House

Novatos, Part I: Rizvan Kuniev, Tyrell Fortune

The Newcomers, Part I: Rizvan Kuniev, Tyrell Fortune

A separação desses dois nomes do grupo seguinte acontece por um motivo objetivo: ambos estão no Top 10 e vêm de vitórias sobre nomes já estabelecidos. Kuniev venceu Jailton Almeida, enquanto Fortune superou Marcin Tybura.

Kuniev já enfrentou Blaydes anteriormente. Ainda assim, o caminho de fazer cada um deles testar um dos “Mainstays” parece uma progressão inteligente. Outra alternativa seria colocar os dois frente a frente em algo que lembra um “clube do vale-tudo”, em que, por enquanto, apenas um seguiria com força para frente.

Mainstays, Part II: Ante Delija, Marcin Tybura

The Mainstays, Part II: Ante Delija, Marcin Tybura

Os dois veteranos europeus ficam na parte mais baixa do ranking, mas ainda assim funcionam como engrenagens importantes dentro do ecossistema da categoria. Eles são testes reais para qualquer esperança que não seja “impulsionada” direto para o topo — como aconteceria no caso de Hokit.

Existe uma forma como a palavra “veterano” acabou sendo distorcida e usada de modo pejorativo, mas Delija e Tybura representam o papel clássico dentro do peso-pesado. A ideia é que eles cumpram essa função mais uma vez ainda neste período do verão. Mais detalhes vêm em seguida.

Novatos, Part II: Valter Walker, Brando Pericic

The Newcomers, Part II: Valter Walker, Brando Pericic

Atualmente lado a lado no ranking, com os números 13 e 14, Walker vem de quatro vitórias seguidas, todas finalizando com heel hook. Ele ainda não enfrentou alguém do nível mais alto, o que limita a leitura do quanto ele pode render contra nomes mais completos.

Brando Pericic coleciona três vitórias em nove meses, todas terminando por finalização. Os dois têm potencial, mas não dá para cravar onde termina o teto de cada um enquanto não testarem suas habilidades contra adversários mais consolidados.

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Bem-vindos à categoria: Johnny Walker e Aleksandar Rakić

Welcome to the Division: Johnny Walker, Aleksandar Rakić

Walker e Rakić têm compromissos marcados para fazer a estreia na divisão ainda neste verão, em Belgrado, na Sérvia. Na programação, Walker enfrenta Ante Delija, enquanto Rakić medirá forças contra Marcin Tybura.

Os emparelhamentos iniciais são vistos como excelentes para entender, rapidamente, o que cada lutador consegue — ou não consegue — transportar do meio-pesado para o peso-pesado. Ao mesmo tempo, eles dão aos “Mainstays” a chance de conquistar vitórias sobre nomes já conhecidos, sem precisar enfrentar imediatamente os dois próximos atletas em ascensão na fila.

Cada um tem estrutura para migrar de vez para o peso-pesado, mas a questão real é como o jogo muda com o aumento do tamanho e como a base técnica se sustenta diante de adversários maiores.

Sem ranking, mas com destaque: Ryan Spann, Vitor Petrino, Mario Pinto

Unranked, but Interesting: Ryan Spann, Vitor Petrino, Mario Pinto

Ryan Spann é um striker com bastante técnica e vem de duas paradas consecutivas após sofrer uma derrota na estreia na divisão contra Waldo Cortes Acosta no ano passado. Caso ele faça mais uma boa atuação, pode aparecer como candidato para encarar um adversário ranqueado.

Vitor Petrino é um egresso do Contender Series que migrou para o peso-pesado no ano passado. Ele soma 3-0 até aqui na categoria. A leitura é que ele ainda está “verde” como lutador, além de ter apenas 28 anos, algo considerado jovem para o padrão do peso-pesado. A recomendação é manter a construção gradual, com estratégia de longo prazo.

Mario Pinto também está 3-0 depois de sair do Contender Series. Nas duas primeiras apresentações, ele parou Austen Lane e Jhonata Diniz. Depois disso, porém, teve uma atuação mais morna em março contra um substituto de última hora, Felipe Franco. Pinto treina e mora em Londres, e, novamente, por idade e estágio, o caminho defendido é o mesmo: passo a passo.

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By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.