Philipe Lins terá a chance de transformar sua trajetória neste sábado ao encarar Francis Ngannou em um confronto marcado para as primeiras ações do MVP no formato de evento de MMA transmitido ao vivo pela Netflix. A luta acontece em Inglewood, na Califórnia, e coloca o brasileiro diante de uma das maiores estrelas da história recente do esporte — justamente em uma noite que promete ser histórica por conta do novo palco e da vitrine global.
Ex-campeão peso-pesado da PFL, Lins conquistou o título da temporada de 2018 e deixou o UFC em 2024 após emendar uma sequência de quatro vitórias. Agora, ele entra no card como o “lado B” do duelo contra “O Monstro”, e também como o atleta menos popular entre os principais nomes envolvidos na programação. Para ele, esse cenário não funciona como pressão negativa — e sim como combustível.
“Estamos fazendo história antes mesmo do primeiro golpe”
Em entrevista, Philipe Lins tratou o duelo como um marco tanto esportivo quanto simbólico, ressaltando a importância da estreia do evento na Netflix. O brasileiro afirmou que uma vitória sobre Ngannou consolidaria seu nome no MMA de forma permanente, com a sensação de ter construído algo único em sua carreira.
“A gente já está fazendo história antes mesmo da luta acontecer, com esse primeiro evento na Netflix. Uma vitória sobre o Francis Ngannou, com tudo o que ele fez no MMA e com o legado que construiu, colocaria meu nome para sempre na história como o cara que derrotou o Ngannou”, disse Lins. “Seria como uma obra de arte, sabe? Algo que levaria minha carreira para um patamar bem mais alto. Eu sou uma pessoa simples, então não fico me empolgando demais imaginando o que pode acontecer. Mesmo vencendo, eu continuaria sendo a mesma pessoa de sempre: calmo, firme no chão e curtindo a vida. Mas, sem dúvida, bater o Francis seria algo extraordinário. Ainda não consigo colocar em palavras o tamanho disso.”
O combate entre Ngannou e Lins está programado para cinco rounds. Lins, que é produto da American Top Team, garante que estará pronto para completar toda a duração, mesmo que mais de dois terços das suas vitórias no MMA tenham terminado antes do limite. Ao todo, ele soma nove nocauteamentos e quatro finalizações, contra cinco lutas decididas.
Plano para os 25 minutos: cansar, frustrar e esperar a janela
Mesmo apostando na própria capacidade de encerrar a luta, Philipe Lins explicou por que acredita que tornar o duelo mais longo pode ser uma vantagem. Ele citou como referência o estilo que viu no confronto de Francis Ngannou contra Stipe Miocic, com a ideia de manter o adversário pressionado mentalmente e atento a ângulos e aberturas.
“Eu vou estar preparado para lutar os cinco rounds. Acho que, quanto mais a luta continuar, melhor fica para mim. Eu olho para a luta dele contra o Stipe Miocic como exemplo: vou tentar frustrar, procurar brechas. É muito difícil achar ‘buracos’ no jogo dele”, declarou Lins. “Eu vou estar pronto para cinco rounds com ele, lutar de forma inteligente, usar todas as minhas habilidades e aplicar do jeito certo aqui. Mas também sou um cara que busca nocaute e finalizações. Vou esperar o momento certo. É um nível alto, então você precisa saber como usar o que tem e aguardar a oportunidade.”
Tempo longe do octógono e motivação para o 41º aniversário
O brasileiro também comentou o período de dois anos sem atuar no octógono. Na visão dele, esse intervalo serviu para recuperar lesões, ajustar falhas do próprio jogo e se reorganizar fora do esporte, algo que ele diz ter renovado sua energia. Lins chega aos 41 anos em agosto, e vê a luta como um retorno com foco renovado.
Para o atleta, o confronto é “a maior oportunidade da carreira até aqui”. Ele ainda ressaltou que dividirá a noite com nomes que considera atletas lendários, citando Ronda Rousey e Gina Carano como referências do evento e do impacto cultural que a transmissão traz. Ele também indicou que uma vitória teria efeito direto em sua situação contratual: como ele será agente livre na semana seguinte, um resultado positivo pode mudar os rumos do seu próximo ciclo no MMA.
“Uma vitória sobre o Francis Ngannou seria muito grande. Ele é um cara que não precisa de apresentação: enfrentou nomes gigantes, foi campeão do UFC, nocauteou a maioria dos atletas que enfrentou e carrega toda a história dele. Ele atravessou para o boxe e lutou contra dois campeões, Tyson Fury e Anthony Joshua. Depois voltou ao MMA e vem de duas vitórias. O Francis vai ser o maior desafio da minha carreira, a luta mais importante da minha carreira. Eu sei disso. Vai ser uma grande missão para mim”, disse Lins. “Mas eu sou um lutador experiente e sei como vencer lutas. Uma vitória sobre o Francis colocaria meu nome no nível mais alto do MMA, para sempre, na história do esporte. Seria algo extraordinário. Eu acredito no meu potencial, nas minhas habilidades, e estou buscando essa vitória.”
Contrato, bastidores no UFC e a chance no novo formato da Netflix
Philipe Lins afirmou que o acordo para lutar no MVP está pagando mais do que ele recebia no UFC entre 2020 e 2024, embora reconheça que ainda fica abaixo do valor do auge na PFL, quando ele venceu Josh Copeland por nocaute na final da temporada de 2018.
O brasileiro também admitiu que demorou para digerir a decisão do UFC de não renovar seu contrato, mesmo vindo de uma sequência vitoriosa que incluiu Ion Cutelaba, Maxim Grishin, Ovince Saint Preux e Marcin Prachnio. Segundo ele, a luta de 2024 contra Cutelaba foi a última do período contratual, e a renovação não aconteceu.
“Aquela última luta de 2024, contra o Cutelaba, foi a luta final do meu contrato, e decidiram não renovar. Eu queria ficar com a organização, mas foi uma decisão interna deles, não renovar meu acordo”, explicou Lins. “O que eu posso dizer sobre o UFC é que eu vou ser sempre muito grato por tudo o que eles fizeram por mim e por todas as oportunidades que me deram dentro da empresa. Eles colocaram minha carreira em outro nível, e eu vou sempre apreciar o que o UFC fez por mim.”
Na sequência, ele detalhou o momento em que recebeu a notícia e como isso afetou sua cabeça. Lins contou que ficou difícil no início, mas que com o passar dos dias conseguiu se reorganizar e entender que outras portas também estavam abertas.
“Quando conversei com meu manager e ele me disse que o UFC não ia renovar meu contrato, foi realmente complicado. Ao mesmo tempo, eu também senti um pouco de responsabilidade. Teve algumas lutas que nem aconteceram: duas vezes eu acabei desistindo na semana da luta porque eu não estava me sentindo bem. O UFC é uma organização gigantesca, tem muita coisa envolvida. Talvez a minha idade também tenha pesado na decisão de não renovar”, completou. “No começo foi muito difícil. No início, eu tive dificuldade para assimilar, mas conforme os dias passaram eu acalmei e coloquei a cabeça no lugar. E existem outras organizações, né? A Netflix está fazendo agora seu primeiro evento e dando oportunidade para grandes atletas. Eu acho que eles vieram para ficar e competir com essas grandes organizações. Mas no começo foi bem pesado.”

