Gina Carano voltou aos ringues depois de 17 anos e fez sua estreia no card de estreia da MVP MMA neste fim de semana, mas o reencontro com a ação durou apenas 17 segundos. A luta acabou quase no mesmo instante em que começou: Ronda Rousey conseguiu uma queda logo no início e, em seguida, encaixou de maneira imediata sua finalização mais característica, a chave de braço em posição de armbar, levando Carano a tapear. O desfecho foi pouco compatível com a expectativa criada para o retorno da ex-estrela do MMA, especialmente porque Carano não lutava desde 2009, período em que passou a dedicar grande parte do foco à carreira como atriz.
O treinador de Carano, John Wood, lamentou a forma como o combate se encerrou tão rápido, destacando que a preparação estava em ordem. “Qualquer coisa que termine em 17 segundos é decepcionante. Foi uma daquelas situações em que ela estava totalmente pronta. Eu adoraria ter a chance de montar outro ciclo de treino, porque boa parte deste teve muito trabalho de perda de peso e ajuste de dieta; ela ficou extremamente motivada para garantir que faria a categoria, e fez um excelente trabalho com isso. Só que, além disso, ela estava pronta. Principalmente na semana anterior ao confronto, eu comecei a acreditar muito no que ia acontecer. Eu pensei: ‘caramba, ela vai fazer isso’. Ela parecia muito bem, muito afiada, muito pronta para ir para cima”, afirmou.
Wood, porém, explicou que quando o adversário é alguém do nível de Rousey, o timing e a execução costumam decidir tudo com brutal rapidez. Ele ressaltou que não foi um acontecimento isolado: Rousey já havia encerrado lutas sob um minuto diversas vezes, incluindo uma finalização ainda mais veloz, com marca de 12 segundos. Na visão do treinador, para dar certo, seria necessário quase uma “perfeição” na noite inteira, e o MMA raramente permite esse tipo de cenário. “Mas, infelizmente, a questão é que quando você tem alguém como a Ronda, que é tão boa no que faz, e isso não é um acaso, não é como se ela não tivesse repetido esse tipo de coisa outras 15 vezes em menos de um minuto. Ela já fez uma mais rápida ainda. Não dá pra tratar como um ‘como isso aconteceu’. Para que tudo se alinhe, precisa ser uma noite muito boa, quase impecável, e lutar quase nunca é perfeito”, completou.
O comandante também disse que sabia que existia a possibilidade de Rousey encerrar a luta em poucos instantes, exatamente como já fez inúmeras vezes na carreira. Ainda assim, Carano não chegou a mostrar o que trabalhou ao longo dos últimos seis meses em preparação no Syndicate MMA, em Las Vegas. Para Wood, o jogo pode ser cruel e foi exatamente isso que aconteceu no sábado. “Dá para entender qual era o plano: sair, se mexer um pouco e começar a trabalhar. Mas a Gina é lutadora. Ela quer lutar. Ela quer trocar. Essa garota não foge de combate. Ela gosta de brigar. Mesmo que existisse uma pequena margem na cabeça dela, nessa luta não havia margem nenhuma. Ela foi lá, acertou um jab, mandou um chute por dentro e pronto. Era sempre um caminho ou outro, e infelizmente aconteceu do jeito mais rápido. A gente não conseguiu fazer quase nada do que planejamos”, declarou.
Na sequência, Wood reforçou que a preparação foi séria e que o desempenho nos treinos não indicava qualquer sinal de que algo sairia errado. “Ela estava pronta. O acampamento foi levado a sério. Ela trabalhou por seis meses. Quem disser que foi armado não entende nada do que aconteceu com ela. Ninguém queria ir para o confronto mais do que ela. Ela estava preparada”, insistiu.
Wood ainda rejeitou a narrativa de que Carano teria “jogado” o combate por ter terminado tão rápido. Ele pontuou que, apesar da popularidade de Rousey ter sido construída em cima do controle no chão e da sequência de finalizações rápidas, Carano — mesmo com sorrisos e abraços após o fim do confronto — ficou profundamente abalada com a derrota. “Ela ficou chateada por ter nos deixado na mão ou por não ter sido possível ter a luta [que a gente queria]. Nunca é sobre a gente, é sobre ela. Existem lutadores que são lutadores, e existem lutadores que são lutadores de verdade, e a Gina é uma dessas. Ela quer descer para a trocação, quer trocar, quer brigar. No ginásio, parte do treino era justamente tirar dela um pouco desse estilo de porrada sem freio. Ela até me disse, e a gente conversou depois, que foi o melhor que ela já se sentiu em toda a carreira — calma, focada, sabendo que fez um acampamento adequado. Só que não deu para usar nada do que treinamos. Eu acho que ela realmente queria mostrar toda a evolução que fez”, afirmou.
O treinador também comentou como, caso o combate tivesse permanecido mais tempo em pé, o desempenho poderia ter sido outro. “Se a gente conseguisse manter na trocação de distância e seguir, não teria outro sentimento do que intenção de machucar nos socos. Assim como foi com a Ronda. A intenção dela era derrubar e quebrar o braço, e ela quase conseguiu! Você pode ser simpática o quanto quiser, mas aquelas duas estavam lá para causar dano uma na outra. Ela está, sim, devastada e com o coração partido por não ter tido a chance de colocar em prática todo o trabalho pesado que fez”, resumiu.
Com a derrota, a pergunta que ficou no ar foi qual exatamente era o plano de Carano para a luta. Wood revelou que a ideia era buscar uma execução semelhante àquela mostrada por Amanda Nunes, campeã de duas divisões do UFC, que havia dominado Rousey em apenas 48 segundos quando as duas se enfrentaram em 2016. “O primeiro round seria mãos e movimentação. Pra cima e na bike. A meta era tirar aqueles dois primeiros minutos do ritmo. A ideia era desacelerar as coisas porque a gente sabia que ela chegaria forte e agressiva. Ficar atrás do jab e girando, circulando. Honestamente, o plano era bem parecido com o que a Ronda e a Amanda [Nunes] fizeram: tentar pegá-la quando ela avança, tentar pegá-la quando ela entra. Dar tempo para que isso aconteça. Eu realmente, de verdade, acreditava que era algo possível”, explicou.
Wood também descreveu que o foco maior do plano passava por boxe e movimentação de pés, além de manter resistência contra quedas. “A parte principal era boxe e trabalho de pernas. Óbvio que a defesa contra queda também entrava. Mas olha, a garota é kickboxer no coração. E o que é para acontecer acontece”, disse.
O treinador afirmou que Carano estava preparada para as investidas de quedas que Rousey certamente tentaria, mas ressaltou que, dentro do octógono, o melhor e o pior podem acontecer em um piscar de olhos. “A gente treinou isso. A defesa do double-leg a gente praticou bastante, porque eu realmente acho que a Gina teria conseguido impedir as tentativas. Então, a gente estava preparado. Mas, de novo, em toda luta você não espera o que acontece. Ela saiu como um tiro. Dá para dizer que o plano nunca foi sair lançando chute logo de cara, mas enfim… é luta. Você sente algo e faz”, comentou.
Na avaliação de Wood, o momento mais perigoso era justamente o começo do combate, ainda que não tenha sido exatamente um erro clássico. “Aquele ponto — a única coisa que a gente precisava era não cometer erros, especialmente no primeiro round. Esse era o round mais perigoso. E nem era uma falha do tipo ‘eu fiz algo errado’. Era só que não era o que a gente queria fazer. E pronto. A Ronda é uma especialista; ela aproveita o menor detalhe”, concluiu.
Depois do revés, Carano admitiu que saiu do cage sem sentir que a luta aconteceu do jeito que ela planejou, já que não treinou apenas para vencer: ela se colocou pronta para uma guerra e, no fim, só teve 17 segundos de combate. Por isso, Wood disse que não pretende fechar as portas para um retorno de Carano ao Syndicate MMA e a um novo ciclo de preparação para um novo compromisso. “Eu definitivamente acho que não está fora de questão. Eu penso que a Ronda tem uma posição bem firme contra uma revanche, mas eu não vejo a Gina com ‘não’ tão claro. Ela mesma já falou isso. Eu não posso falar por ela, nem dizer como ela vai se sentir daqui a algumas semanas, quando tudo isso assentar”, afirmou.
O treinador ainda interpretou que existe um “coceira” que não foi preenchida e que a derrota pode ter acordado algo nela. “Eu acho que tem uma inquietação que não foi atendida. Eu acho que isso acordou uma parte nela. Ela ama treinar de novo. Ela curte o clima do ginásio. Pra mim, parece algo mais saudável do que ela vinha sentindo faz um bom tempo, e talvez até seja a melhor versão da Gina do que mesmo lá atrás, há 15 anos. Então, eu gostaria de ver ela tentar mais uma vez. Mas, no fim, é uma decisão dela. O que eu posso dizer é que ainda não é um ‘não’. Existe um mundo em que a gente vê isso acontecer”, encerrou.

