Rousey e Carano no octógono: MVP MMA acerta o hype ou decepciona?

Ronda Rousey e Gina Carano sobem ao octógono em poucos dias, e a pergunta que fica no ar é se o evento do MVP MMA vai entregar um espetáculo à altura da expectativa — ou se vai virar um daqueles shows que decepcionam depois do hype. Para sábado, a organização programou um card com 11 lutas no Intuit Dome, em Los Angeles (Califórnia), com o confronto principal entre as “rainhas do retorno” Rousey e Carano, além de dois co-main events com apelo imediato ao público: Nate Diaz vs. Mike Perry e Francis Ngannou vs. Philipe Lins.

O torneio também ganha força por ser exibido ao vivo na Netflix, mirando números altos tanto de fãs mais tradicionais quanto de espectadores casuais. Antes da bola rolar, o debate gira em torno do desempenho das protagonistas após longos períodos longe das competições: Rousey não lutava desde 2016, enquanto Carano ficou sem atividade desde 2009.

O que está em jogo no MVP MMA 1

  • Card com 11 lutas será realizado neste sábado, no Intuit Dome, em Los Angeles, Califórnia
  • Evento traz como luta principal Ronda Rousey vs. Gina Carano
  • Co-main events incluem Nate Diaz vs. Mike Perry e Francis Ngannou vs. Philipe Lins
  • A transmissão ao vivo na Netflix deve ampliar o alcance para fãs hardcore e casuais
  • Expectativa dividida sobre como os combates vão se desenrolar após grandes hiatos

Apesar das comparações com grandes datas recentes do UFC, a percepção geral é de que este card tenta roubar parte do holofote que normalmente domina as noites de MMA. A aposta em estrelas de apelo popular, somada ao envolvimento de Jake Paul na empreitada, fez o evento ganhar tração e, agora, resta ver como o desempenho dentro da jaula vai traduzir todo o barulho.

1) Este evento vai ser bom de verdade?

Para Mike Heck, a resposta é “difícil cravar”, mas há um ponto claro: o público vai assistir. Mesmo que muita gente diga que não pretende acompanhar, a curiosidade em cima das lutas principais e do formato do show deve garantir audiência, enquanto a qualidade técnica total do card — pelo menos em comparação com o topo absoluto do MMA — não é exatamente o foco.

Heck também aposta no entretenimento como caminho. Na visão dele, Ronda Rousey deve finalizar Gina Carano com relativa rapidez, Francis Ngannou tende a nocaute ar Philipe Lins cedo e Nate Diaz vs. Mike Perry tem tudo para virar uma daquelas brigas sem freio, no estilo “luta de pancadaria”. Para ele, se esses três duelos caminharem por esse roteiro, não há motivo para frustração, especialmente porque a organização colocou nomes que agradam a base mais engajada entre as lutas preliminares.

Já Alexander K. Lee admite que a empolgação diminuiu com a proximidade do dia do evento. Ele reconhece que o MVP e os atletas envolvidos, inclusive Nate Diaz, fizeram as rodadas de mídia na medida certa, o que não é necessariamente ruim. O problema, segundo Lee, é que o excesso de exposição acabou tirando parte do brilho do acontecimento, e ele sente falta de “faísca” entre os protagonistas — principalmente em Rousey e Carano.

Lee descreve que, para quem acompanha MMA com regularidade, a atmosfera está ficando “normal demais”, com cara de rotina, e isso pode atrapalhar um show que promete mais estilo do que substância. Ele observa ainda que, caso o espectador comece pela primeira luta, precisará passar por combates menos badalados antes de chegar a um card principal que pode variar bastante em qualidade. A preocupação final é que, ao soar o último sino, o sentimento coletivo seja de cansaço, e não de entusiasmo.

Jed Meshew, por outro lado, se coloca como o otimista do grupo. Ele acredita que o MVP MMA 1 deve ser uma boa experiência, mesmo sem reunir “os melhores lutadores do planeta” do jeito mais completo possível. Na leitura dele, o evento foi desenhado para a maior base possível de fãs casuais: reconhecível, acessível e com nível mínimo de qualidade que sustenta o interesse durante toda a noite.

Meshew compara o formato ao “McDonald’s” do entretenimento em MMA: algo pensado para funcionar para um público amplo, e não para servir como aula técnica o tempo inteiro. Ele também vê Rousey e Carano como atletas historicamente divertidas, e, com o longo afastamento, imagina que o duelo principal termine com um caos controlado — um tipo de luta que, mesmo sem ser “alta arte”, tende a render momentos memoráveis.

Dentro dessa linha, Meshew sugere que Nate Diaz e Mike Perry têm alergia a lutas sem graça, enquanto Ngannou deve finalizar Lins de forma marcante. O comentarista ainda ressalta que o MVP não é a primeira promoção do grupo, já que Jake Paul e sua equipe têm experiência em movimentar eventos e, mesmo sem agradar sempre na parte promocional, o projeto pode trazer uma mudança de ritmo em relação à repetição dos fins de semana do UFC.

Por fim, Meshew crava que o evento deve ser o maior da história do MMA em alcance — embora, em qualidade, não necessariamente alcance o padrão máximo. Ainda assim, ele se diz cautelosamente confiante de que o público sairá satisfeito o suficiente.

2) Ronda Rousey e/ou Gina Carano terão essa como a última luta?

Meshew aponta que a “aposta mais inteligente” é que tanto Rousey quanto Carano devem encerrar ali, mas faz uma ressalva: ele acredita que, pelo menos para Rousey, ainda não é uma despedida definitiva. Na interpretação dele, o motivo do confronto seria simples por trás dos discursos públicos: Rousey buscaria uma espécie de acerto de contas após um término de carreira marcado por um desfecho catastrófico, enquanto Carano quereria voltar a ser assunto e reconquistar a fama.

Meshew afirma que, ao tentar retornar, Rousey pode ter reativado algo dentro dela — ou, mais precisamente, que Hunter Campbell teria papel relevante nesse estímulo. Com o tempo, o foco dela parece estar em provocar “caos” no cenário do MMA, e, como figura de destaque do MVP, o melhor trabalho agora seria continuar lutando. O comentarista entende que, para o projeto existir de verdade no universo do esporte, o grupo precisará de estrelas, e Rousey pode acabar sendo puxada para pelo menos mais uma luta nesse processo de construção.

Já sobre Carano, Meshew demonstra mais incerteza. Ele enxerga esse retorno como uma recuperação de trajetória e não tem certeza se novos combates ajudariam a consolidar esse objetivo. Na hipótese de Carano superar expectativas contra Rousey — ou se o Hollywood continuar sem oferecer novos convites —, talvez ela faça outra tentativa. Mesmo assim, ele considera menos provável que siga em frente no esporte.

Heck concorda com Carano sem dúvidas, mas não crava o mesmo para Rousey. Ele diz que, para Rousey, ainda é cedo para fechar questão e que só o que acontecer no sábado vai responder. Se ela fizer exatamente o que Heck acredita, a luta poderia ser um grande jeito de encerrar, já que Rousey é competitiva por natureza e também tenta contribuir para o crescimento do MMA, oferecendo caminhos e possibilidades dentro do esporte.

Heck ainda levanta um cenário que ele considera “o maior combate realista” que o MVP poderia montar: uma revanche entre Rousey e Holly Holm. Ele entende perfeitamente o desejo de Rousey de ter esse capítulo de volta como lutadora.

Lee, por sua vez, vai na direção de que as duas seriam as despedidas. Ele admite que nunca desistiu da ideia de Rousey fazer mais uma luta, mas diz que sabe quando é hora de recolher as fichas. Na visão dele, Rousey vence, sai “do jeito dela” e entrega o suficiente para o público querer mais — justamente o modelo ideal para qualquer atleta que decide se despedir depois de um hiato quase de uma década.

Para Lee, Carano não esconde o foco financeiro e, principalmente, a tentativa de “limpar” a reputação após sua saída conturbada das franquias de Star Wars e o posterior bloqueio em Hollywood. Ele conclui que, pelo que recebeu durante a construção do MVP MMA, Carano já teria atingido o objetivo, e que não pretende lutar novamente.

3) Nate Diaz, Mike Perry ou Francis Ngannou conseguem roubar a cena?

Para Lee, a “Diaz Army” volta a ganhar força. Ele reconhece que é um clichê falar de Diaz, mas reforça que o carisma do lutador é único e que ele segue conquistando fãs mesmo sem viver o melhor momento esportivo e sem estar em lutas realmente grandes há anos. Na leitura de Lee, quando Diaz entra no card, a tendência é que ele se torne o assunto do dia, independentemente do desempenho técnico.

Lee também compara a relação de estilos entre Diaz e Perry: ele enxerga em Perry um espírito parecido com o do “devil-may-care”, alguém que não teme trabalhar fora do conforto do sistema. E ele vai além ao sugerir que, no fundo, Diaz respeita Perry. Lee espera uma vitória de Diaz, com direito ao gesto característico das “duas mãos” após o triunfo transmitido ao vivo na Netflix, algo que deve agradar tanto fãs casuais quanto os mais fiéis.

Na visão de Lee, mesmo que o resultado do evento principal não siga a linha que ele espera, os atos e reações de Diaz devem permanecer como a lembrança mais duradoura do show.

Meshew reforça a ideia com uma pergunta direta: “alguém é novo aqui?”. Para ele, Nate Diaz sempre rouba a cena — exatamente porque isso faz parte do que ele é como lutador e figura pública. Meshew destaca que, ao longo da carreira, Diaz nunca esteve entre os dez melhores do mundo, mas sua personalidade garantiu que ele permanecesse entre os mais comentados. Enquanto Rousey e Carano devem terminar em um cenário mais caótico, Diaz e Perry têm grande chance de transformar a noite em um duelo de trocação intensa e troca de pancadas.

Sobre Ngannou, Meshew acredita que o camaronês — no caso, Francis Ngannou — pode até render um destaque com um nocaute no estilo videogame, mas entende que o duelo Diaz-Perry será o que todo mundo vai discutir na segunda-feira. Ele deixa claro que é nessa luta que o “buzz” tende a crescer mais.

Heck, por sua vez, vê Ngannou com desvantagem de “roubar a cena” — não por falta de capacidade, mas por expectativa do público. A maioria acredita que Ngannou vai dominar Philipe Lins com relativa facilidade, então um resultado dentro do esperado pode não surpreender. Já Diaz e Perry podem chamar atenção se transformarem o combate em uma guerra divertida, daquelas em que os dois batem sem medo.

Heck também lembra que Diaz encontra um jeito de criar narrativa, vencendo ou perdendo. Para ele, independentemente de quem leve a mão na luta, o mais importante é como o confronto é percebido pelo público: se for uma batalha aberta, a avaliação geral do evento sobe. Se for uma luta ruim, os críticos vão usar isso como prova de que estavam certos desde o início.

Na reta final, Heck reforça que o confronto precisa entregar em algum nível. Ele admite que não será o patamar de uma luta como Ilia Topuria vs. Arman Tsarukyan, mas defende que, se as expectativas forem calibradas, a partida pode cumprir seu papel e fazer o card valer a pena.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.