Depois de mais uma noite eletrizante em Newark, no estado de Nova Jersey, o UFC 328 deixou muito assunto para os fãs avaliarem no pós-evento. Houve a retomada de uma ex-campeã, um atual detentor que demonstrou foco para administrar o momento e uma sequência de resultados que reverberou em diferentes divisões.
Vamos ao que interessa?
Sean Strickland voltou a ser o campeão dos meio-médios (até 84 kg) do UFC. Ele derrotou Khamzat Chimaev pela primeira derrota da carreira em uma luta disputada no limite, com cinco rounds completos, e o desfecho veio por decisão dividida.
UFC 328 Rewind: principais resultados e repercussões
Há análises para todos os lados sobre a luta principal, com pessoas revendo cada round para entender a pontuação e discutir se Chimaev saiu prejudicado ou se Strickland foi merecedor do cinturão pela segunda vez. Ainda assim, apesar do trabalho de dissecar critério por critério ser relevante, o ponto que mais chama atenção é como o confronto contraria a lógica que parecia se desenhar boa parte do tempo — e mesmo assim manteve um nível de competitividade raro, com margem real para diferentes leituras entre os juízes.
No primeiro round, o roteiro inicial seguiu o esperado para Chimaev: tentativas de queda e pressão no grappling. Só que Strickland se defendeu com excelência, sem se desorganizar emocionalmente, concentrando-se em evitar o perigo e em conseguir espaço para trabalhar quando tinha a oportunidade. A partir daí, porém, o cenário virou do avesso. O desafiante passou a ter as quedas seguintes barradas pelo campeão, que conseguiu negar as tentativas e ainda ficou grande parte do segundo round no controle a partir de cima. Foi como se a luta tivesse entrado em um “mundo invertido”, mas o ritmo inverteu dessa forma e continuou até o fim.
Chimaev voltou a mostrar fôlego, mas escolheu ficar em pé para trocar golpes. Nessa fase, ele acertou golpes individuais mais significativos e frequentemente era quem ditava a ação. Ainda assim, Strickland manteve sua estratégia tradicional: trabalhar com um jab rápido e volume constante. Mesmo variando com tentativas de queda em alguns momentos nos rounds finais, Chimaev não conseguiu prender Strickland no chão nem colocá-lo em posições ruins de forma consistente. Com isso, a decisão acabou sendo tomada em pé, e dois dos três árbitros marcaram a favor do ex-campeão que agora soma dois títulos na categoria.
A postura de Strickland no início foi exatamente o que qualquer pessoa que visse chance de vitória nele argumentaria que era necessário fazer. Isso inclui Sean Madden e o narrador desta edição, que discutiram o combate em conversa de bastidores. O que ninguém esperava, no entanto, era que Chimaev fosse imediatamente taxado e obrigado a alterar o plano tão cedo. E também não parecia provável que Chimaev conseguisse se manter tão equilibrado no ritmo contra Strickland nos demais rounds, considerando como a luta seguiu.
Fica difícil ignorar quanto a pausa prolongada somada ao ganho de massa por parte de Chimaev — com foco em uma transição para o peso-meio-pesado — pode ter influenciado o desempenho. Além disso, existe o componente do jogo mental que Strickland impôs desde o anúncio do combate. Esses dois fatores podem pesar bastante em qualquer atleta. Quando Strickland forçou o campeão a trabalhar pesado logo no primeiro round, a reserva energética que costuma sustentar o nível ao longo da luta não apareceu na mesma intensidade para Chimaev no restante do combate, ao contrário do que ele fez ao quebrar Du Plessis de maneira metódica e com aparente facilidade no ano anterior.
O peso-médio voltou a ficar extremamente interessante. Dá até para imaginar uma revanche pela proximidade do resultado — ainda que esta avaliação tenha sido feita em tempo real com pontuação a favor de Chimaev, uma reexibição é necessária para uma leitura mais calibrada. Nassourdine Imavov, por sua vez, já observa a cena de perto. Dricus du Plessis já venceu Strickland duas vezes, Brendan Allen vem de uma atuação forte e tem histórico com o campeão, e ainda está programado para encarar um companheiro de equipe. No mesmo compasso, Joe Pyfer segue avançando na divisão e tentando se firmar como nome inevitável.
Com tantas possibilidades, a parte final do ano na faixa dos 84 kg deve render muita emoção.
Joshua Van vence Tatsuro Taira e consolida rivalidade em nova fase
Antes do evento principal, o campeão dos moscas (até 56,7 kg), Joshua Van, entrou no UFC 328 com a sensação de que acabaria vendo Tatsuro Taira novamente no futuro. Ainda assim, na noite de sábado, em Newark, a prioridade foi resolver o confronto com o desafiante japonês. Depois de encerrar a luta cedo no quinto round e reter o cinturão com sucesso, tudo indica que foi observado o primeiro capítulo de uma disputa que pode definir a categoria pelos próximos cinco a sete anos — ou até mais.
Foi um combate acima da média. Taira começou muito bem no wrestling, colocando o campeão no chão repetidas vezes enquanto absorvia pouco dano nos minutos iniciais. Do começo até a marca dos nove minutos iniciais, a atuação do japonês foi sólida. Porém, Van encontrou o timing: acertou uma mão direita que derrubou o rival e quase concretizou a própria previsão de finalizar a luta antes dos três primeiros rounds. Taira resistiu ao ataque, conseguiu atravessar a ofensiva e ainda finalizou o round com uma tentativa de queda, levando o duelo para um quarto período competitivo. No quinto, Van acelerou e decretou o fim do combate.
Com as tensões do main event dominando a narrativa da semana, essa luta acabou passando um pouco “por baixo do radar” para algumas pessoas. Mesmo assim, entregou em cheio. O que se viu foi a primeira perna de uma rivalidade que tende a ser o centro do que a divisão vai discutir daqui em diante. Van tem 24 anos e Taira 26; apesar de existirem outros nomes no horizonte, a impressão é que esses dois devem se enfrentar repetidas vezes na próxima década, com o título do UFC novamente em jogo algumas vezes.
Taira mostrou enorme resistência e capacidade de aguentar um terceiro round que muitos outros teriam sido desligados mais cedo. Ainda assim, há pontos que ele pode lapidar. Van, por outro lado, exibiu tranquilidade e foco, segurando o plano de jogo e sem se precipitar quando precisou defender quedas por quase todo o início do confronto e tentar voltar aos pés.
Alexandre Pantoja deve ser o próximo adversário de Van — o ex-campeão tem mérito para uma revanche, tanto pela força do período em que ficou no topo quanto pelo jeito como a primeira luta terminou. Taira, enquanto isso, deve dar um passo para trás para reorganizar o ritmo e permitir que outros avancem suas próprias candidaturas. A divisão, no geral, está em uma posição melhor do que nunca, tanto no momento quanto olhando para frente. E esses dois nomes devem continuar na linha de frente: rivais técnicos, respeitados e com cara de que ainda vão se cruzar várias vezes.
Jim Miller: 30 vitórias no UFC e 50 aparições viram meta mais próxima
Jim Miller, o atleta com mais tempo de casa no elenco do UFC, definiu como missão chegar a 30 vitórias e a 50 aparições dentro do octógono antes de encerrar a carreira. Se ele não tivesse passado o ano anterior fora por problemas físicos, a aparição no UFC 328 poderia ser a luta de número 49, não a 47. Ainda assim, a vitória deste fim de semana acabou deixando o momento ainda mais especial.
Um fator importante para a longa ausência do veterano foi o tratamento do filho mais velho, Wyatt. No ano passado, ele enfrentou um câncer infantil raro e perigoso. Mesmo lidando com questões próprias de lesão, Miller direcionou energia para cuidar do filho e priorizou a saúde dele, o que o fez retornar ao ritmo de competição mais tarde do que o normal. Em abril do ano passado, Wyatt foi declarado livre da doença. No sábado, Miller avançou mais um degrau rumo às duas metas que ele quer alcançar.
Logo no início do confronto, quando Jared Gordon baixou o nível e tentou uma queda no meio do primeiro round, a leitura foi imediata: era um movimento arriscado, porque Miller agarrou uma guilhotina na hora. Quando Gordon ajustou para trabalhar com guarda completa, a situação piorou. Miller continuou mudando o quadril, aproximando-se da posição de montada, e a pressão ficou insustentável. Com isso, Gordon foi obrigado a desistir do combate.
Com a vitória, Miller somou mais um registro às estatísticas de maior aparição e maior número de vitórias da história do UFC. Ele ainda conquistou seu sexto bônus de Performance da Noite e anotou o 18º triunfo por finalização na divisão dos leves — um recorde. Mas, mais do que números, houve algo simbólico: a luta foi vencida diante dos quatro filhos — Amelia, Wyatt, Cassidy e Sawyer —, da esposa, da família ampliada e de várias outras pessoas que sabem como o último ano foi pesado para toda a família Miller.
Parabéns a Jim e parabéns a Wyatt. O legado de luta dura claramente atravessa gerações.
Alexandre Volkov e outros destaques do card: avaliação de rumos
No peso-pesado, Alexandre Volkov garantiu que seguiria na disputa ao encarar Waldo Cortes Acosta com disposição e intensidade nos três rounds. Mesmo com a vitória, Volkov ainda se sente como “o homem no caminho” na corrida pelo topo. Ele é um lutador técnico e bem preparado, venceu seis dos últimos sete compromissos e, nas principais temporadas recentes, só foi derrotado por Tom Aspinall e Ciryl Gane. Ainda assim, a sensação é de que uma atuação forte de Josh Hokit no UFC Freedom 250 pode colocar Volkov mais perto do grupo principal, possivelmente deslocando o russo, que segue prosperando longe dos holofotes.
Sean Brady dominou Joaquin Buckley e voltou ao caminho das vitórias para lembrar o quanto ele é perigoso quando entra focado. A categoria dos meio-médios não precisa de mais gente tentando provar que merece vaga entre os nomes de cima, mas Brady já convive com esse debate há tempo. A derrota para Michael Morales no ano anterior, após uma semana conturbada em Nova York, não deveria ter empurrado o lutador longe demais na fila.
King Green segue fazendo por merecer, sempre com eficiência e estilo. O veterano no peso-leve eliminou Jeremy Stephens ainda no primeiro round. Com isso, ele conquistou a segunda vitória por interrupção em 2026 e emendou o terceiro triunfo seguido. O que Green disse na primeira parte da entrevista pós-luta — sobre estar entre os atletas mais consistentemente empolgantes da divisão por um longo tempo — é verdade. Chegou a hora de o público reconhecer o lutador pelo que ele entrega com regularidade.
Ateba Gautier está enfrentando um desafio positivo em 2026: trabalhar um pouco mais para vencer. Isso só deve ajudar no desenvolvimento futuro. O prospect no peso-médio fez Ozzy Diaz cair no segundo round, alcançando a segunda vitória do ano e a quinta sequência consecutiva. A mensagem é clara: embora ele tenha força brutal, ainda é um nome em formação e precisa continuar sendo conduzido com calma. O peso-médio está bem servido no momento, então não há razão para acelerar etapas em Gautier agora.
Yaroslav Amosov é o tipo de lutador que entrega o que promete. Para o próximo compromisso, a expectativa é ver o ucraniano medindo forças com alguém do Top 15 — e até do Top 10. Amosov agora tem retrospecto de 2-0 no UFC, com duas vitórias por finalização. Ele aplicou a derrota em Joel Alvarez ao conseguir o controle e finalizar. O perfil dele é de um veterano experiente que deve ser empurrado com velocidade pelos degraus da divisão. A sugestão para o futuro, inclusive, é um confronto de main event contra Uros Medic em Belgrado ainda neste verão.
Em relação a Baisangur Susurkaev, a vontade é que ele combata com mais foco e urgência no começo das lutas. Ainda assim, não há o que discutir sobre o resultado. “The Real Hunter” registrou seu terceiro triunfo consecutivo por interrupção no sábado, apagando Djorden Santos com um mata-leão por trás no terceiro round e avançando para 12-0 no total.
Jose Ochoa teve uma estreia muito convincente ao vencer Clayton Carpenter por decisão unânime na luta de abertura. O peruano é outro talento jovem para acompanhar no peso-mosca: apesar de ainda ter um cartel de 2-2 dentro do octógono, as derrotas aconteceram em lutas equilibradas contra Lone’er Kavanagh e em um compromisso aceito de última hora contra o top 10 Asu Almabayev. A orientação é para que, depois desse resultado, ele não tente avançar além do que o momento pede — assim, o caminho para entrar no ranking deve aparecer ao longo do próximo ano.
Homenagem póstuma e reconhecimento: Thomas Gerbasi no Hall da Fama
O UFC anunciou no sábado que o diretor editorial Thomas Gerbasi, que faleceu recentemente, será incluído no Contributors Wing do Hall da Fama do UFC durante a International Fight Week deste ano.
Ninguém merece mais esse reconhecimento.
Longtime @UFC writer e diretor editorial Thomas Gerbasi foi confirmado na classe do Hall da Fama do UFC de 2026 como “Contribuinte”.
Ao longo dos últimos oito meses desde a passagem dele, a percepção sobre o trabalho de Tom só aumentou. Suas ações, palavras e a forma como ele orientou a cobertura moldaram muita do que o público consome sobre o esporte. Mais importante ainda: atletas e pessoas ligadas ao MMA relataram lembranças muito carinhosas de conversas com TG ao longo dos anos, reforçando o quanto ele se importava com as histórias e com o que acontecia dentro do UFC.
As imagens exibidas no pacote do sábado fizeram lágrimas aparecerem durante a noite, quando a câmera cortou para a família dele presente. A expectativa é que a emoção também apareça na cerimônia de julho, mas a certeza é que ele não será lembrado apenas por uma pessoa: o sentimento coletivo mostra como a homenagem é merecida e como é um tributo adequado para alguém que deixou impacto profundo nos bastidores e na vida de tanta gente.
A saudade diária permanece, mas fica uma lembrança que faz sorrir: é impossível não imaginar o desconforto que ele teria ao ser celebrado publicamente desse jeito. São memórias como essa que ajudam a manter o sorriso.
Nos vemos de novo depois do UFC 329.
Sejam gentis uns com os outros.

