UFC Vegas 116: odds e previsões do card principal no Meta AIpex

O UFC retorna neste sábado, 25 de abril de 2026, ao Meta Apex, em Las Vegas (EUA), para o UFC Vegas 116. Depois de mais de uma centena de eventos no complexo, a análise das “cartas de nicho” muda de foco: em vez de procurar surpresas, o mais importante é avaliar o nível do combate principal e, em seguida, se os nomes já estabelecidos foram encaixados em lutas que prometem disputa real. E, para este fim de semana, a atenção está em Aljamain Sterling contra Youssef Zalal, um duelo de alto nível que eleva o patamar do card. Abaixo, veja a leitura técnica e as projeções para os cinco principais confrontos antes do main event.

Peso-galo: Norma Dumont x Joselyne Edwards — leitura de ritmo, queda e “curva” de agressividade

Combate: Norma Dumont (-215) vs. Joselyne Edwards (+164)

  • Melhor vitória (Dumont): Irene Aldana
  • Melhor vitória (Edwards): Nora Cornolle
  • Série atual: Dumont vem de seis triunfos seguidos; Edwards de quatro vitórias consecutivas
  • Fator surpresa: Edwards entra como substituta de última hora no lugar de Yana Santos
  • Como elas se encaixam: ambas têm capacidade de troca em pé

Sem a volta de Amanda Nunes — que adiou a disputa direta por cinturão e ainda a manteve fora do caminho imediato — Norma Dumont teria brigado pelo título bem antes. Ela já vinha como uma boxeadora acima da média, com volume consistente ao longo dos anos, mas o grande avanço é que Dumont “assentou” o próprio jogo: tornou-se mais difícil de derrubar e passou a administrar melhor as fases da luta. Do outro lado, Joselyne Edwards continua evoluindo com experiência e vem mais agressiva no momento de finalizar, especialmente quando encontra oportunidades de estrangulamento.

No entanto, quando a análise fica fria, o cenário geral pende para Dumont. Edwards pode até ser a mais forte na pancada, mas Dumont é dura, tem boa precisão no contragolpe e costuma ser mais provável na busca por quedas quando as duas se alinham no centro do octógono. Além disso, o feeling da mão rápida sugere vantagem na maior parte das trocas. Somado ao fato de Edwards atuar em substituição de curto prazo, o peso do contexto pesa contra “La Pantera”.

Projeção: Dumont vence por decisão dos jurados.

Peso-leve: Rafa Garcia x Alexander Hernandez — quem virou a chave no grappling e no controle de fôlego

Combate: Rafa Garcia (+122) vs. Alexander Hernandez (-156)

  • Melhor vitória (Garcia): Jared Gordon
  • Melhor vitória (Hernandez): Beneil Dariush
  • Série atual: Garcia vem de duas vitórias seguidas; Hernandez de quatro triunfos consecutivos
  • Fator surpresa: a mudança recente no calendário de Hernandez, que deixou o foco de “lesão” pairando sem confirmação oficial
  • Como eles se encaixam: dois pesos-leves experientes e completos tentando se aproximar do ranqueamento

Rafa Garcia é um “wrestle-boxer” clássico e, por muito tempo, não foi exatamente o tipo de cartel que convenceu. A virada mais recente foi o nocaute sobre Jared Gordon, mas há uma camada que chama atenção: o próprio contexto do confronto, já que Gordon teria sido atingido por um acidente de trânsito no dia anterior. Por isso, a luta contra Hernandez pode servir como termômetro real de evolução — ou como prova de que o salto de desempenho não foi tão “transferível” para um teste mais duro.

Já Alexander Hernandez, que por muito tempo também gerou dúvida no mesmo critério, agora parece ter encontrado consistência. Desde que voltou ao peso-leve em 2024, o lutador atlético tem administrado melhor o próprio ritmo, lutando mais no contragolpe e usando timing para encaixar golpes relevantes sem se desorganizar. O ponto central é que ele parece ter ajustado o fôlego: não “força” demais a ação a ponto de se esgotar, e isso muda completamente o teto de desempenho ao longo do combate.

A projeção aqui é dupla: primeiro, não dá para cravar que Garcia evoluiu genuinamente apenas por um resultado com circunstâncias pouco usuais; segundo, Hernandez realmente parece ter entrado numa fase de melhor execução. Ainda assim, não é como se isso garantisse que Hernandez vá atropelar qualquer adversário de elite. O argumento é que ele tem quedas e, ao mesmo tempo, possui boxe com precisão suficiente para punir a pressão à frente de Garcia. Existe a possibilidade de o brasileiro aguentar o ritmo e “sobreviver” até o fim, mas lutas duras anteriores do próprio Garcia sugerem que o desgaste pode virar contra ele em cenários de atrito prolongado.

Projeção: Hernandez vence por decisão dos jurados.

Peso-pena: Davey Grant x Adrian Luna Martinetti — troca de estilos e degrau enorme no caminho do estreante

Combate: Davey Grant (-120) vs. Adrian Luna Martinetti (-106)

  • Melhor vitória (Grant): Jonathan Martinez
  • Melhor vitória (Martinetti): Mark Vologdin
  • Série atual: Grant perdeu sua última luta; Martinetti estreia no UFC após 15 triunfos seguidos
  • Fator surpresa: o “UFC jitters” (ansiedade/instabilidade de estreia) pode pesar contra Martinetti
  • Como eles se encaixam: luta com alta chance de ser movimentada e intensa

Davey Grant é um daqueles nomes que, em qualquer universo, viraria queridinho do público: ele tem caráter competitivo, entrega pancada e nunca foi “manso” no que faz. Aos 40 anos, a sensação é que ele não perdeu o timing — e uma parcela disso talvez venha de um período de menor atividade entre 2013 e 2019. Desde 2020, porém, Grant tem sido consistente e levado um kickboxing de base dura para lutas contra adversários de qualidade.

Adrian Luna Martinetti chega com uma história que chama atenção: um cartel profissional de 17 vitórias e 1 derrota, construído com kickboxing de alto volume e suporte de jiu-jitsu brasileiro. Na Contender Series, ele pareceu bastante “cirúrgico” contra Mark Vologdin, mas há um detalhe: a altura e a distância do adversário podem ter ajudado a afinar a taxa de acerto, já que Martinetti entrava com mais velocidade dentro do alcance.

O ponto que pesa é o salto de categoria no desafio. É um grande degrau para o estreante, e a leitura é que Martinetti ainda não tem um pacote completo o suficiente para lidar com a postura de Grant: crafty (astuto), sujo quando precisa, insistente e forte. Grant pune lutadores mais jovens e “mais de manual” com mudança de base e trabalho de chute mirando a perna. Para neutralizar isso, exige controle emocional e poder. A impressão é que o brasileiro não tenha o mesmo nível de preparação para impedir o jogo de perna e combinação, e também não parece ter um plano de wrestling sólido para levar a luta para o chão contra um adversário “perigoso” no stand-up.

Se Grant não vier “lavado” após a derrota para Charles Jourdain, a tendência é que ele consiga castigar a perna de Martinetti e montar sequências ao longo dos rounds.

Projeção: Grant vence por decisão dos jurados.

Peso-galo: Montel Jackson x Raoni Barcelos — a fase de reabilitação do brasileiro e o teste do “padrão Jackson”

Combate: Montel Jackson (-186) vs. Raoni Barcelos (+144)

  • Melhor vitória (Jackson): Daniel Marcos
  • Melhor vitória (Barcelos): Payton Talbott
  • Série atual: Jackson perdeu sua última luta; Barcelos vem de quatro vitórias seguidas
  • Fator surpresa: Jackson pode ser pouco ativo durante o combate
  • Como eles se encaixam: Barcelos recebe uma chance merecida contra um oponente ranqueado

Montel Jackson é um lutador frustrante para o adversário: há potencial visível, tamanho favorável para a divisão e “energia” no braço direito capaz de apagar luz. Além disso, ele costuma complicar a vida para derrubar. O problema é que Jackson pode ser irregular e, às vezes, fica preso num roteiro de 1-2, o que ajuda a explicar por que Deiveson Figueiredo, mais velho e menor, conseguiu tirar vantagem na luta anterior.

Agora, a leitura precisa mudar: o momento de Raoni Barcelos parece ser uma “segunda vida” que veio para ficar. Ele lutou três vezes no ano passado e apresentou consistência com um pacote que mistura boxe, wrestling e insistência. Mesmo aos 38 anos, o desempenho recente indica que Barcelos não teve um período melhor desde o início da carreira profissional, que data de 2012.

Há um padrão interessante nas derrotas de Barcelos no UFC. Com exceção de Umar Nurmagomedov — que, em geral, é acima da média — ele caiu para lutadores de alto volume. Ou seja: quando a luta vira “jogo de troca longa”, esticando as oportunidades de encaixe e mantendo o combate em pé por bastante tempo, Barcelos tende a sofrer. Curiosamente, isso contrasta com o que se espera de Jackson: um adversário com ameaça de queda e força no golpe, mas que pode preferir um caminho mais seletivo.

Jackson tem defesa de quedas e pode, teoricamente, assustar cedo com a mão pesada. Só que, se o nocaute não vier rápido, a tendência é que Barcelos consiga conectar mais golpes e, principalmente, avance com wrestling de transição para procurar posições melhores. Mesmo que o controle total não aconteça toda vez, a ameaça do takedown tende a obrigar Jackson a respeitar a chegada ao clinch e ao chão, o que pode “trancar” a esquerda forte do norte-americano no sentido de diminuir a frequência de golpes.

Projeção: Barcelos vence por decisão dos jurados.

Peso-pesado: Marcus Buchecha x Ryan Spann — grappler de estreia contra o pacote que pode punir a base

Combate: Marcus Buchecha (-146) vs. Ryan Spann (+114)

  • Melhor vitória (Buchecha): Amir Aliakbari
  • Melhor vitória (Spann): Dominick Reyes
  • Série atual: Buchecha entra após um empate; Spann venceu sua última luta
  • Fator surpresa: Buchecha ainda é muito “cru” em termos de MMA completo
  • Como eles se encaixam: o card recente trouxe combates pesados empolgantes, mas a impressão é de que não haverá repetição no mesmo formato

Os últimos dois eventos recentes na divisão tiveram lutas pesadas animadas, mas a expectativa para este confronto é que o roteiro não siga exatamente a mesma linha. Marcus Buchecha é, acima de tudo, um grappler de qualidade mundial — e isso é inegociável. No entanto, o boxe e a troca de golpes em pé parecem menos naturais, e o wrestling dele tem uma característica bem específica: busca um double-leg com corrida e força bruta, o que torna a execução previsível para quem tem defesa.

O lado positivo é que Buchecha tem apenas 36 anos e ainda tem margem para lapidar o MMA: são somente sete lutas profissionais, o que abre espaço para evoluir golpes, ajustar entradas e melhorar a leitura de tempo. Ryan Spann, por sua vez, é um peso-pesado que já foi “pesado” no passado, mas que cansou do corte de peso. No octógono, ele bate forte e tem uma guilhotina que pode mudar o destino do combate rapidamente — além disso, o pacote fora disso tende a ser mais limitado.

Essa luta lembra o que aconteceu em um confronto anterior de Buchecha, quando enfrentou outro adversário “inflado” do peso-leve para o pesadão, no caso Kennedy Nzechukwu. Naquele dia, apesar de vantagem física, Buchecha não conseguiu derrubar com consistência e acabou perdendo dois dos três rounds. Foi uma apresentação bagunçada, em que ele se cansou, e mesmo assim tomou mais golpes do que conseguiu impor seu plano. A comparação é inevitável: Spann, em teoria, é um adversário mais completo do que Nzechukwu, o que reduz a margem de erro do brasileiro.

Um detalhe que pode ser decisivo é que Spann costuma empregar jiu-jitsu para impedir quedas e se proteger de tentativas, e isso pode “virar contra” um grappler extremamente talentoso, mas ainda em processo. Ainda assim, a análise não ignora as fragilidades: as limitações do conditioning e do wrestling de Buchecha parecem difíceis de esconder. Assim, o jogo de “sprawl-and-brawl” (defender e trocar) tende a ser o caminho mais lógico para Spann.

Se Spann encaixar a guilhotina em cima de um Buchecha já cansado, o desfecho pode ser rápido.

Projeção: Spann vence por nocaute.

O que o UFC Vegas 116 pode significar — e por que o main event define o “tom” do card

Mesmo sem entrar no resultado do evento principal, a construção do UFC Vegas 116 deixa claro o foco do torneio: lutas que testam evolução real e não apenas nomes em datas de rotina. O combate entre Aljamain Sterling e Youssef Zalal serve como eixo do card, porque coloca um lutador experiente e um adversário em ascensão em um confronto que tende a mexer diretamente com a leitura de longo prazo do peso e com o caminho de disputa. Na mesma linha, os confrontos do topo estabelecem testes importantes para ranqueamento: Norma Dumont tenta manter a sequência e consolidar posição, Raoni Barcelos busca confirmar o momento contra um rival de alto nível, e Hernandez quer seguir escalando com vitórias sobre adversários que podem aproximar o cartel de uma chamada maior.

  • Dumont: se confirmar a projeção, fortalece a narrativa de continuidade na briga por caminhos de topo.
  • Hernandez: uma vitória por decisão reforça o encaixe de wrestling e punição com timing, abrindo portas para adversários ranqueados.
  • Barcelos: passar por Jackson pode ser um salto de credibilidade, já que o cenário pede jogo inteligente para não cair no “padrão” de alto volume.

Com o evento marcado para 25 de abril de 2026, o UFC Vegas 116 chega com um card desenhado para gerar respostas: quem está em ascensão de verdade, quem só vive um pico pontual e quem consegue traduzir qualidade técnica em resultado mesmo com contexto adverso. A partir daqui, o próximo passo para os vencedores mais prováveis tende a ser a escalada direta no ranqueamento — e, para o main event, a definição do “próximo capítulo” da divisão.

Fator adicional: as projeções do texto indicam um retrospecto de “X-Factor Picks” de 23-11 para 2026.

By Rafael Costa

Rafael é jornalista esportivo focado em MMA e UFC. Ele acompanha eventos nacionais e internacionais, trazendo análises detalhadas de lutas, rankings e desempenho dos atletas.